A mídia “ocidental” explica o que acontece na Síria?

A ocupação de Alepo pelas forças do regime sírio abriu um importante debate nas redes sociais entre os apoiadores de Bashar Al-Assad e os defensores da Revolução Síria.

A solidariedade com as vítimas das bombas da Rússia e de Assad foi expressiva em muitas cidades do mundo. Começou pela Síria e por outros países do Oriente Médio, como o Líbano, mas alastrou-se também pela Europa, Estados Unidos e América Latina.

A solidariedade internacional expressou, em geral, um conteúdo político de repúdio ao regime de Bashar Al-Assad e à intervenção russa e de outras potências mundiais, como Estados Unidos, Turquia, Qatar e Arábia Saudita. Não foram manifestações contra a guerra em abstrato, e sim atos políticos de repúdio aos principais responsáveis pelas mortes em Alepo: a Rússia e Assad. Não estamos falando, obviamente, de um movimento similar ao movimento contra a invasão do Iraque, é bem mais modesto, mas foi importante e não deve ser ignorado.

Os defensores de Bashar Al-Assad, em todos os seus matizes, celebraram o que para eles teria sido a libertação da cidade de Alepo dos terroristas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Legitimaram e apoiaram as bombas, as violações, a tortura e a prisão de milhares de pessoas. Toda a oposição ao regime foi rotulada automaticamente de terroristas da Al-Qaeda, da Al-Nusra e do Estado Islâmico.

No entanto, a opinião pública majoritariamente se comoveu com as cenas de barbárie e terror transmitidas quase ao vivo pelos ativistas em Alepo. A esquerda pró-regime e pró-Rússia ficou, em certo sentido, isolada, defendendo de maneira raivosa e irracional a barbárie da ocupação de uma cidade por tropas estrangeiras, sem conseguir convencer algum segmento muito representativo da opinião pública mundial.

O papel da mídia
Um dos argumentos mais importantes dos “assadistas” é afirmar que os meios de comunicação estariam a favor da queda de Bashar Al-Assad e de uma mudança de regime na Síria. Utilizam a mesma lógica da teoria da conspiração e de uma suposta tentativa por parte dos EUA e do “imperialismo” de desestabilizar e derrubar um governo progressivo.

É claro que os meios de comunicação “ocidentais” (categoria que, naturalmente, é muito pouco precisa) são empresas capitalistas que funcionam sob a lógica do mercado e do lucro. No entanto, têm uma característica que os diferenciam profundamente dos meios de comunicação que apoiam o regime de Assad (Russian Today, HispanTV e a agência estatal síria SANA, entre outros), isto é, não são controlados diretamente por seus governos e por isso podem cobrir e transmitir um drama humanitário como o da Síria, embora não de maneira totalmente “objetiva”, sempre a partir da perspectiva da defesa de determinados interesses políticos.

A grande maioria dos relatos sobre a Síria conserva um mesmo problema intrínseco. Poucas vezes os sírios são tratados como sujeitos de suas ações. São sempre vitimados, manipulados ou diretamente ignorados pelos meios de comunicação. As fontes raramente são sírias, sempre são especialistas, acadêmicos, pessoas “capacitadas” para interpretar a realidade do país e explicá-la ao público ocidental. Eles mesmos, os sírios e sírias, seriam incapazes de se autoexplicar.

Os principais meios de comunicação tratam o conflito sírio simplesmente como um drama humanitário, o que sem dúvidas é, mas omitem ou esquecem um elemento determinante para entendê-lo. A Síria, desde 2011, é palco de uma revolução social que continua, com mais ou menos força e contradições, até os dias de hoje e pode durar mais muitos anos.

A esquerda espanhola diante da revolução síria
Infelizmente, a maioria das organizações da esquerda espanhola assumiu o discurso de que o que ocorre na Síria é uma guerra organizada por potências estrangeiras contra um governo legítimo.

A IU (Esquerda Unida) publicou recentemente um comunicado no qual afirma que não participará das convocações de solidariedade com Alepo porque, em sua opinião, o que aconteceu naquela cidade foi a luta contra “grupos jihadistas”. Como a organização se proclama partidária da paz (que paz, a dos cemitérios?), vai se abster de participar de qualquer atividade política em solidariedade com Alepo, porque as que foram realizadas até o momento estariam assumindo um discurso de defesa dos interesses das potências “invasoras”.

A posição do PCE (Partido Comunista da Espanha) é ainda mais extrema e reacionária em apoio aos crimes cometidos em Alepo. Fala diretamente de libertação da cidade e de que o governo sírio agora tem a possibilidade de recuperar o controle de todo o país. Seu comunicado está cheio de falsificações abusivas e mentiras sobre fatos amplamente documentados, como o massacre com armas químicas em Ghouta [cinturão agrícola em torno de Damasco, ndt], em 2013.

O Podemos não se posicionou oficialmente sobre o tema. Nas poucas atividades organizadas de solidariedade com Alepo, a esquerda parlamentar se destacou por sua ausência e isto contribuiu para a pouca repercussão nos meios de comunicação. Dizer que a “mídia ocidental” estaria assumindo uma posição ativa contra Assad é, no mínimo, uma afirmação que não se comprova na realidade.

O que o futuro nos reserva?
No Iraque, a resistência contra a ocupação norte-americana durou mais de uma década e foi monopolizada por grupos que agora cumprem um papel importante na Síria, como a Al-Qaeda e o que viria a ser o Estado Islâmico. O fundamentalismo nutre-se do desespero, do sentimento de abandono e do caos. Além disso, conta com fontes de financiamento constantes, sobretudo doadores privados de países como Arábia Saudita e Qatar. Uma parte do que acontece na Síria é uma luta fratricida entre diferentes grupos sectários, mas este aspecto não é o único e nem sequer o mais importante, nem pode ser utilizado para caracterizar o conflito em sua totalidade.

Para os EUA, seria bem mais cômoda e prática uma saída “egípcia” ou “tunisiana” para a revolução síria. Como não foi possível, devido à oposição da Rússia e do Irã a que Bashar Al-Assad fosse derrubado, toleraram o genocídio orquestrado por Moscou porque preferem o derramamento de sangue e a derrota da revolução síria a um confronto de maiores proporções com os países que apoiam o regime sírio. Esse é o drama que se transformou na tragédia de nosso século, em uma verdadeira Nakba que nos marcará por décadas e décadas.

O que acontece na Síria é, sem dúvida alguma, um genocídio, já que o número de mortos já supera meio milhão e o número de deslocados, exilados, sitiados e presos é impossível de calcular. Assad, o responsável pela ampla maioria das mortes, mais de 90% segundo algumas fontes, está cometendo um crime contra a humanidade.

Alguns analistas decretaram o fim da esquerda com a derrota de Alepo. Estamos profundamente de acordo com os argumentos que os levam a chegar a esta conclusão, mas nos damos ao luxo de ser otimistas no meio do caos e do desespero. Acreditamos que a revolução síria e o movimento de solidariedade internacional constituído nos últimos anos deve se transformar no início de um novo movimento internacionalista e revolucionário, que rompa com os fantasmas do passado e não hesite na hora de apoiar ativamente a luta de qualquer povo que se levante contra um déspota.

Por Gabriel Huland

Tradução: Rosangela Botelho

Publicado em www.corrienteroja.net