A maior tragédia ambiental do país

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Surubim, lambari, robalo, cascudo e piabinha. Pelo menos 200 espécies de peixes viviam no Rio Doce. Agora elas estão morrendo ou agonizam sob o mar de lama de rejeitos de minério das barragens da Samarco. Os roçados e plantios que existiam à margem do rio também deixaram de existir com a enxurrada de lama. Aqueles que sobraram não podem mais utilizar a contaminada água do rio para a irrigação. A lama chegou ao mar e destrói manguezais, áreas de pesca, contamina as praias e pode viajar por centenas de quilômetros levada pelas correntes marítimas.

O Rio Doce está morto. Serão necessárias décadas para sua recuperação. Pescadores, famílias camponeses e pequenos agricultores perderam seu sustento. A captação da água do rio feita pelas centenas de cidades que ficam nas suas margens foi suspensa. A presença de metais pesados, como chumbo e alumínio, pode inviabilizar o uso das águas do rio por anos. Mas, até agora, a mineradora não revelou que tipo de metais havia na barragem.

Lucros
A extração de minério de ferro a céu aberto, como é praticada no Brasil e em boa parte do mundo, é extremamente poluente e predatória. Mas não é verdade que só se pode minerar assim. As barragens de rejeito, como a que rompeu na Samarco, poderiam ser substituídas por processos de empilhamento de rejeitos a seco e não na forma de barragem. Neste método, separa-se a água do mineral, o que permite que os resíduos sejam empilhados e controlados. Outro método é depositar em minas subterrâneas, em cavas exauridas de minas. Por que não se fez isso? Porque o armazenamento de rejeitos a seco aumenta os custos, coisa que as empresas não querem. Na verdade, a indústria extrativista nos países periféricos está montada num tripé que é produzir o máximo, com o mínimo de custos e com a menor mão de obra possível. Por isso, tantos acidentes de trabalho e tragédias ambientais.

Da forma como a mineração é praticada hoje em dia, fica inevitável a contaminação permanente de rios, aquíferos, ar e solos. A empresa BHP, por exemplo, em 1999, admitiu ter liberado, ao longo de mais de uma década, milhões de toneladas de rejeitos da exploração de cobre nas bacias hidrográficas dos rios OK Tedi e Fly, em Papua Nova Guiné, país da Oceania. O impacto comprometeu 120 comunidades camponesas e de pescadores artesanais na região, afetando até 50 mil pessoas.

 

Capitalismo destrói meio ambiente

No passado, o capitalismo proporcionou um grande desenvolvimento das forças produtivas (o conhecimento e o uso da natureza, da ciência e a técnica). No entanto, o capitalismo é totalmente incompatível com a preservação ambiental. Voltada para os lucros imediatos, a exploração capitalista se move por uma lógica de curto prazo, o que é incompatível com o tempo de recuperação da natureza. O resultado tem sido a contaminação do solo, do ar e da água, a devastação das florestas tropicais e o esgotamento dos recursos necessários à sobrevivência humana.

Sob o capitalismo, as forças produtivas se transformaram em forças destrutivas. Ou seja, técnicas e novas descobertas científicas servem para aumentar os lucros dos empresários e aprofundam ainda mais a crise ambiental. Um exemplo foi o desenvolvimento e o uso indiscriminado dos agrotóxicos e das sementes transgênicas que causam impactos ao meio ambiente e à saúde humana.

Para solucionar a crise ambiental criada pelo capitalismo, é preciso uma mudança radical: a produção deve estar nas mãos dos trabalhadores, e o desenvolvimento da técnica e da ciência devem responder às necessidades da população. Isso envolve, antes de tudo, uma verdadeira revolução do sistema energético e de transportes e dos modos de consumo atuais, baseados na depredação do meio ambiente.

O fim da exploração irracional dos recursos do planeta só pode ser alcançado por um mundo socialista, baseado na propriedade coletiva dos meios de produção, que garanta que a exploração dos recursos do planeta será em benefício de toda humanidade e não de um punhado de ricos.
 

Leia a Parte 1: Uma cidade e centenas de histórias de vida sob a lama

Leia a Parte 2: A mineração e a recolonização do Brasil

Programa: Propostas para a mineração brasileira
 

Congresso de picaretas quer novo código da mineração

Está em discussão uma proposta de novo código da mineração, defendido por uma série de deputados e pela presidente Dilma. Muitos dos políticos envolvidos na elaboração receberam dinheiro da indústria extrativa do ferro, principalmente da Vale. A proposta de novo código altera profundamente a atividade de mineração no país, estabelecendo leilões do subsolo que seriam organizados pela Agência Nacional de Mineração. Esse modelo favorecerá o controle da atividade mineral por parte das grandes multinacionais mineradoras, tal como ocorre com os leilões do petróleo hoje.

Ainda de acordo com o projeto, não haverá limites para o tamanho de exploração das áreas, e o prazo de extração será de 40 anos, renovável por mais 20 anos. Além disso, a proposta representa um duro ataque ao meio ambiente e às populações tradicionais, pois submete a demarcação de unidades de conservação ambientais, de territórios indígenas e remanescentes de quilombos à aprovação prévia da Agência de Mineração.

 

Nunca é um acidente
O capitalismo mata! Morte ao capitalismo!

Jerônimo Castro, direto de Mariana (MG)

A destruição da barragem da Mina de Germano, em Mariana (MG), poderia ser apenas um grande e trágico acidente. Se fosse assim, uma vez resolvido o problema, poderíamos voltar tranquilamente à vida normal.

No entanto, a realidade não é essa. Basta olharmos para a nossa história recente. Basta olharmos para o mundo a nossa volta para percebermos que é muito mais do que isso.

Os chamados acidentes ambientais se repetem em escala cada vez maior. Quem não se lembra do dia 11 de março de 2011, quando a usina de Fukushima, no Japão, entrou em colapso colocando em risco a vida marinha de boa parte da costa japonesa e do Oceano Pacífico? Esse foi apenas o mais espetacular acidente nuclear de uma série.

A exploração de petróleo vai pelo mesmo caminho. Ao longo das últimas décadas, milhões de barris de petróleo se espalharam por rios e mares. A vida marinha, em muitos casos, sofreu danos irreparáveis.

As grandes mineradoras, em especial as a céu aberto, consomem uma quantidade enorme de água e destroem, de forma definitiva ou por muitos anos, quilômetros de terras com poluição e devastação ambiental.

As grandes plantações de soja e milho transgênico que tomaram conta de nossa agricultura, cujos efeitos na saúde humana e na própria capacidade das plantas não foram devidamente estudados, podem afetar e por em risco a vida humana e a biodiversidade.

Poderíamos dizer que são apenas efeitos secundários de uma atividade necessária, mas não é assim. Em nenhum dos ramos citados e em muitos outros que poderíamos citar, o que prima e realmente importa não é a busca de meios de vida e de sobrevivência para a maioria da população. Tampouco seu bem estar. Não! O que está acontecendo é uma atitude predatória e incontrolável que é parte da própria natureza do capitalismo e de sua incessante busca por lucro.

É a lógica do Capital
A produção de mercadorias não obedece à lógica de saciar as necessidades humanas. Ela obedece à lógica de aumentar ao máximo os lucros diminuindo ao mínimo os custos de produção. É exatamente essa lógica aplicada a projetos de exploração da natureza que leva à destruição de áreas cada vez maiores do planeta.

Essa não é uma discussão meramente ambiental. Pelos menos não no sentido tradicional. A destruição em escala industrial do planeta afeta, sobretudo, a população, em especial seus setores mais pobres. Cada grande catástrofe ambiental teve como resultado perdas humanas diretas, daqueles que morreram no próprio acidente, e indiretas, com as vítimas de contaminações, doenças e escassez que as grandes catástrofes geram.

Crimes do Capital
Para salvar nossas vidas e a humanidade, é necessário que o capitalismo morra

As grandes catástrofes a que estamos submetidos, ambientais ou não, têm uma mesma origem.

A destruição da Síria, o avanço do Estado Islâmico, o massacre de palestinos, o drama dos refugiados na Europa, o surgimento de grupos fundamentalistas de extrema direita, a fome endêmica em regiões inteiras do planeta, pestes como o ebola e a volta de doenças que já se davam por desaparecidas, como a tuberculose, são frutos do mesmo processo: da busca desenfreada por lucro.

No mundo inteiro, o capitalismo se tornou uma grande força destrutiva em que as ilhas de estabilidade, calma e tranquilidade são cada vez menores e mais difíceis de se encontrar.

Aqueles que lutam contra os efeitos do capitalismo, que estão contra a destruição do meio ambiente, contra os massacres, contra os ataques aos povos oprimidos, contra a perseguição aos imigrantes legais ou ilegais, que lutam contra a fome e a miséria devem saber que não é possível vencer nenhuma destas grandes catástrofes se não formos ao coração do problema.

Não haverá um capitalismo mais humano. Quanto mais velho o capitalismo ficar, mais ele desenvolverá sua características negativas, mais destrutivas e predatórias serão suas ações.

Nos últimos 50 anos, foram causados mais danos ao meio ambiente do que durante toda a existência da humanidade. Hoje isso poderá desencadear efeitos irreversíveis, como o aquecimento global. No último século, mais guerras aconteceram e mais pessoas morreram nelas do que em toda a nossa história anterior. Nos últimos 40 anos, nunca se produziu tantos alimentos em tão grande escala, mas nunca houve tantos famintos. Mais de um bilhão de pessoas segundo a ONU.

Por tudo isso, é necessário dizer em alto e bom som: para salvar nossas vidas e a humanidade, é necessário que o capitalismo morra!
 

Leia a Parte 1: Uma cidade e centenas de histórias de vida sob a lama

Leia a Parte 2: A mineração e a recolonização do Brasil