A capitulação do MRT à frente popular

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O Movimento Revolucionário dos Trabalhadores – MRT vem publicando, na página Esquerda Diário[1], uma série de artigos com suas análises e posições sobre a crise política no Brasil. Nestes artigos, faz duras críticas ao PSTU por sua posição diante desta crise.
 
Este comportamento não é uma novidade: desde que se intitulavam de Liga Estratégia Revolucionária – LER, esta corrente dedica parte importante de seus materiais para atacar ao PSTU. O que é novo é que, antes, os ataques eram feitos de uma ótica sectária e ultraesquerdista e, agora, são feitos com argumentos similares aos do PSOL, a Frente do Povo sem Medo (integrada pelo PSOL, MTST e várias organizações que fazem parte ou apoiam o governo de Dilma Rousseff, como o PCdoB, a CUT, a UNE, etc.) e aos do próprio governo do PT.
 
De conteúdo, o raciocínio é o seguinte: no Brasil e na América Latina, há um “giro reacionário” da situação política porque a ruptura dos trabalhadores e das massas com os governos burgueses de frente popular e populistas (como o kirchnerismo na Argentina, o chavismo na Venezuela e o petismo no Brasil) vem sendo capitalizada pela direita. Nesse marco, são negativos para as massas os triunfos eleitorais de Mauricio Macri nas presidenciais da Argentina e da oposição burguesa venezuelana nas recentes legislativas. São resultados eleitorais que determinam mudanças na situação política (o “giro reacionário”).
 
No caso do Brasil, isto se expressa nas grandes mobilizações de massas convocadas contra o governo Dilma, que fazem avançar o possível impeachment (julgamento político) para destituí-la. Segundo o PT e a Frente do Povo Sem Medo, isso significaria “um golpe de Estado”. O MRT atenua um pouco esta definição, chamando-a de “golpe institucional”.
 
Além deste matiz diferenciador, todos coincidem em que a principal tarefa é “defender a democracia diante do golpe” e, portanto, opor-se à saída de Dilma.
 
É certo que, ao mesmo tempo, o MRT chama a luta contra o ajuste aplicado pelo governo e a construção de uma alternativa independente dos trabalhadores, mas dada a iminência do “golpe institucional”, isto fica, de fato, submetido à necessidade da “defesa da democracia”.
 
A posição do PSTU de chamar as massas a lutar pelo Fora Todos (tanto o Executivo como o Congresso corrupto, contra todos os representantes da burguesia que estejam no governo ou na oposição, diga-se de direita ou de esquerda) é qualificada pelo MRT como útil ou funcional à direita, porque também chama a derrubar o governo de Dilma.
 
De qual golpe estão falando?
No artigo “A queda de Dilma seria um golpe?”[2], a direção nacional do PSTU responde à falsidade destas análises e justifica porque a posição do PSTU representa a única proposta de uma verdadeira alternativa independente dos trabalhadores.
 
Sobre o tema específico do “golpe”, o artigo começa pela definição do que deve ser entendido quando usamos essa palavra:
 
“Para acontecer um golpe de Estado é preciso que o imperialismo e a burguesia, ou uma boa parte dela, cujos interesses estejam sendo contrariados pelo governo de plantão, se proponham a depô-lo pela força. Isso contra a vontade da classe operária e da maioria da população. Um golpe significa a supressão das liberdades democráticas e a instauração de outro regime político. Isso é feito por fora da constituição vigente, retrocedendo nas liberdades democráticas e, em regra, na independência dos três poderes da democracia burguesa”.
 
Isto é, deve ocorrer uma mudança reacionária do regime (contra o movimento operário e de massas) pela via da força. Por isso, como elemento essencial: “Um golpe de Estado exigiria, além disso, que o setor golpista da burguesia tivesse o apoio das Forças Armadas”, seja para assumir diretamente o poder ou para apoiar o setor burguês que o assuma.
 
O que está acontecendo no Brasil é algo totalmente diferente: “é a luta entre dois blocos burgueses: o bloco do governo do PT e o da oposição burguesa. Uma luta para decidir quem deve governar nesse momento de crise, e aplicar com maior eficiência o ajuste fiscal dos banqueiros”.
 
A maioria da burguesia inclina-se por tirar o governo do PT e substituí-lo por outro diferente, com base parlamentar (PMDB-PSDB). Isto, é claro, gera uma forte crise nas instituições e em toda a vida política do Brasil. Mas é uma mudança dentro do regime atual, que se produziria sem modificá-lo.
 
Qualificar esta mudança dentro do regime como “golpe institucional” é mascarar a realidade com uma definição que acaba sendo uma “ponte” para unir-se aos que dizem que o eixo hoje é “defender a democracia” e, portanto, que seria um erro chamar às massas a derrubar, com sua luta, ao governo de Dilma (e também ao Congresso corrupto e a toda a oposição burguesa de direita).
 
Pode ser argumentado que, se Dilma cai e sobe o vice-presidente Michel Temer sobre uma base parlamentar PMDB-PSDB, será produzida uma fraude contra a maioria que votou em Dilma como presidente. Na verdade, a primeira fraude foi praticada por Dilma (e antes por Lula) e o próprio PT, que fizeram suas campanhas com muitas promessas de mudança e depois governaram para e com a burguesia e o imperialismo (basta ver Katia Abreu, a representante do agronegócio, como ministra da Agricultura). Podemos dizer que um dos objetivos centrais de todo regime democrático parlamentar burguês é enganar aos trabalhadores e as massas. A atual disputa entre o PT e seus aliados e a oposição de direita é então, uma disputa entre “trapaceiros”, mas dentro do regime atual e sem mudá-lo.
 
Há um “giro reacionário”?
Outro debate central com o MRT é sobre a caracterização de “giro reacionário”, que é compartilhada pela maioria da esquerda.
 
Não temos acordo com esta visão: consideramos que é feita uma análise superficial, que leva a conclusões equivocadas em sua interpretação da realidade e dos processos que se dão na consciência das massas. É superficial porque só leva em conta um aspecto superestrutural (os resultados eleitorais), ou que um setor das massas participe das mobilizações chamadas pela direita, sem considerar os processos mais profundos da luta de classes.
 
Na década de 1990, dominaram na América Latina os governos chamados de “neoliberais”. Aplicaram uma política de entrega e privatizações da economia de seus países, e atacaram duramente as condições de trabalho e os salários. No início do século XXI, a resposta de luta dos trabalhadores e do povo contra estes governos transformou-se em processos revolucionários em vários países, que, em muitos casos, derrubaram esses governos: em 2000, no Equador; em 2001, na Argentina; em 2003, na Bolívia. Na Venezuela, isto já se tinha ocorrido em 1989 e a situação se aprofundou em 2002-2003, quando a mobilização dos trabalhadores e do povo derrotou o golpe e o lockout patronal contra o governo de Hugo Chávez.
 
As burguesias nacionais e o imperialismo estavam na defensiva e, em resposta a estes processos revolucionários em escala continental, aceitaram (e, em muitos casos, impulsionaram) governos de frente popular (de aliança de classes) ou populistas: Hugo Chávez, Rafael Correa, Néstor Kirchner e Evo Morales. No Brasil, de modo preventivo, impulsionaram o governo de Lula e do PT.
 
Estes governos refletiam uma profunda contradição. Por um lado, eram uma expressão distorcida do ascenso revolucionário e por isso vários deles “vestiram-se de vermelho” e de anti-imperialistas em seu discurso, tomaram algumas medidas nacionalistas tímidas e parciais e fizeram algumas concessões às massas. Por outro, eram burgueses até a medula e seu objetivo central foi frear as revoluções e salvar o capitalismo e o regime burguês. Por isso, jamais ultrapassaram os limites do sistema econômico capitalista nem de seu Estado. Aqui se aplica com todo seu rigor uma premissa cada vez mais atual: quem não rompe com o imperialismo e com o capital financeiro acaba sendo, cedo ou tarde, instrumento deles.
 
A crise destes governos
Durante vários anos, tais governos usufruíram do “vento a favor” da situação econômica mundial (2002-2011), pelos altos preços das matérias-primas e os alimentos exportados, graças à demanda da China.
 
A partir de 2011-2012, a “bonança” chegou ao final. Esses governos tiveram que aplicar planos de ajustes cada vez mais duros e atacar as concessões dadas na saúde e educação, condições trabalhistas, emprego, etc. Começaram a aplicar o programa da direita neoliberal e, em muitos casos, a levar seus representantes ao governo (como Kátia Abreu, no Brasil). Neste momento, começou também o profundo desgaste de sua influência entre os trabalhadores e as massas. Foram projetos “bem-sucedidos” para salvar o Estado burguês e o capitalismo. Mas, ao mesmo tempo, semearam as bases de sua própria crise e sua decadência.
 
Conseguiram desviar e frear os processos revolucionários, mas não os derrotaram na luta. E os trabalhadores saem à luta (com greves e mobilizações) para enfrentar as medidas do ajuste que estes governos aplicam, abrindo assim a possibilidade de um novo ascenso generalizado.
 
Por que a direita ganha ou se fortalece?
Durante vários anos, os trabalhadores e as massas viram a esses governos como “seus”. Mas, na medida em que estes aplicavam os planos de ajuste, os trabalhadores começaram a romper com (e a lutar contra) eles. Uma ruptura que foi acentuada porque, tratando-se de setores burgueses menores ou em formação, os níveis de corrupção estatal são, de modo geral, mais visíveis do que nos governos burgueses “normais” (onde as coisas ocorrem geralmente “nos bastidores”).
 
Isto permite à direita camuflar seu discurso: não diz “vou fazer um ajuste feroz”, mas “basta de corrupção” e “precisamos uma mudança para pessoas honestas, eficientes e capazes”. Desta forma, ao eleitorado mais tradicional e próprio desta direita, somam-se muitos trabalhadores que expressam (através do “voto castigo” impulsionado pela armadilha das eleições burguesas) sua raiva e frustração com as promessas descumpridas de transformação da sociedade, feitas pelos populistas. Em um raciocínio equivocado, a raiva leva à conclusão de que “qualquer um é melhor que estas pessoas”.
 
No caso do Brasil, isto permitiu uma grande eleição de Aécio Neves em cidades e estados de grande peso operário (como São Paulo). E, agora, a tentativa de aparecer como a “mudança” nas mobilizações contra Dilma.
 
Os complexos processos da consciência
Em última instância, são os próprios governos de frente popular e populistas os responsáveis pela ascensão eleitoral e os triunfos da direita, e pelo peso das mobilizações que esta chama no Brasil. Em primeiro lugar, por ter frustrado as expectativas populares da mudança que diziam representar. Em segundo, porque agora são governos “ajustadores puros”. Em terceiro, porque, ao apresentar-se como a “esquerda” e o “popular” contra a “direita”, contribuem a alimentar a falsa polarização entre duas únicas alternativas (burguesas).
 
Da parte destes governos, a definição de que “há um giro reacionário” da situação tem o objetivo de evitar (ou adiar) a ruptura com eles. Por um lado, para dizer às massas que não devem lutar contra os ajustes porque assim “fazem o jogo da direita”. Por outro, nos processos eleitorais, para ganhar o voto, já que “é necessário defender o que já foi conquistado” e “os que virão podem ser muito piores que nós”. Se há derrota eleitoral, serve-lhes para “lavar as mãos” e descarregar a responsabilidade nas massas, que não souberam distinguir o bom do mau.
 
As correntes de esquerda que apoiam e/ou defendem estes governos (inclusive com críticas, mas com argumentos de que “não são a mesma coisa” ou “devemos defender a democracia”), não fazem mais que “embelezá-los” e frear a luta contra eles, e, assim, se tornam seus cúmplices ou, no mínimo, capitulam perante eles.
 
A ação e a consciência das massas passaram por processos altamente contraditórios nestes anos. Primeiro, lutaram contra os governos e as políticas neoliberais e, em vários países, os derrotaram. Depois, acharam equivocadamente que os governos da frente popular e populistas poderiam ser as ferramentas da mudança à qual aspiravam. Mais recentemente, começaram a lutar contra os ajustes destes governos e a romper com eles.
 
Esta ruptura é um grande avanço em sua consciência. Mas não é um avanço linear, mas altamente contraditório porque, diante da falsa polarização, um setor se paralisa para “defender o conquistado” e outro se confunde com a ideia de que “qualquer um é melhor”, apoiando eleitoralmente a direita (ou simpatizando com suas mobilizações).
 
Mas essa ruptura dos trabalhadores e as massas com o kirchnerismo, o chavismo, o PT ou Evo é o processo mais importante que está ocorrendo na consciência das massas porque, sem isso, não haveria a possibilidade de construir uma forte alternativa operária, revolucionária e socialista à crise do capitalismo. Esta ruptura política é o processo que esperamos durante anos.
 
A capitulação à frente popular
Portanto, cabe aos revolucionários impulsionar a construção desta alternativa, essencialmente nas lutas operárias e na organização das massas. Uma tarefa que só pode ser realizada sobre a base de propostas com posições claras de classe, que não capitulem às frentes populares, especificamente ao governo de Dilma e do PT (mesmo que com o argumento de que “devemos barrar o golpe institucional”).
 
Aqui se aplica uma imagem utilizada por Trotsky para analisar a frente popular governante na França, na década de 1930. Ele dizia que, muitas vezes, a política parece-se com um trem no qual cada vagão que se acopla, embora diga que está “à esquerda” do anterior e tem críticas a este, ao final, segue, com todos os outros vagões, na mesma direção encabeçada pela locomotiva.
 
Aqui, a locomotiva do governo de frente popular é o PT e o governo Dilma. Atrás se acoplam o MTST e o PSOL, que dizem que o governo é “ruim”, mas que é preciso “defender a democracia” e “impedir o golpe” e, em qualquer caso, esperar as eleições de 2018 para mudar. E atrás vem o MRT, que nos propõe lutar muito contra o governo do PT, mas diz que agora não podemos derrubá-lo, mas defendê-lo contra a direita.
 
Não é casual que o MRT tenha pedido para ingressar ao PSOL e feito uma de suas campanhas centrais esse pedido de ingresso. Na prática, colocaram seu vagão atrás do trem que encabeçam Dilma e Lula, capitulando a eles claramente.
 
A política do MRT vai contra o processo mais rico e positivo da consciência dos trabalhadores e das massas (a ruptura com o PT e a frente popular), base necessária para construir uma alternativa revolucionária dos trabalhadores. Na realidade, parecem com alguém que quer adiar um processo de parto que já começou porque não este não ocorre em “estado puro”, mas de um modo bem mais confuso. Como querem que o processo avance e se desenvolva do modo mais positivo se dizem que se trata de um “giro reacionário” e respondem capitulando ao PT?
 
Na realidade, de modo indireto, o MRT também capitula à direita brasileira porque acaba lhe dando de presente o espaço de oposição ao governo, ao invés de disputá-lo claramente e com uma política de classe.
 
Aqui o MRT entra em uma contradição política sem saída, que o leva a não propor nenhuma ação política concreta. Logicamente, chamou a não ir às mobilizações do dia 13 de março, convocadas pela direita. Mas, de modo inconsequente com sua análise, tampouco chamou a participar dos atos de 18 de março chamados pelo PT e seus aliados, nem o do dia 31 de março da Frente do Povo sem Medo, apesar de serem “contra o golpe”. Agora, chamara, a não participar dos atos do 1º de abril convocados pela CSP-Conlutas, o Espaço de Unidade de Ação e o PSTU porque seriam “úteis para a direita”.
 
Na realidade, estes últimos são os únicos atos com propostas independentes, para que a classe trabalhadora construa sua própria alternativa na crise tanto contra o governo, como contra a oposição burguesa de direita.
 
Uma alternativa que começou a se construir na mobilização do dia 18 de setembro passado (com 12.000 pessoas em São Paulo) e também em ações como a greve e a mobilização dos trabalhadores da GM de São José dos Campos, apoiando a política proposta pelo sindicato, a CSP-Conlutas e o PSTU. São ações pequenas diante das que seriam necessárias para impor uma saída própria da classe operária. Mas é um indicativo do que propõe o PSTU e de como as propostas começam a ser assumidas por setores da classe operária.
 
Enquanto isso, o MRT brinca de “mal-me-quer”: Fora Dilma, não; Fora todos, também não; Fica Dilma, sim (mas fica feio dizê-lo). Mas, leia o Esquerda Diário.
 
Uma grande mentira
Porém, quando dizemos isto, os militantes do MRT ficam zangados e sobem seu tom. Até o ponto de tentar “contra-atacar” com uma grande mentira, que chega ao nível da provocação.
 
Em sua página, o colunista Daniel Matos termina um de seus artigos com o seguinte parágrafo:
 
Há quem diga que a debandada de militantes, quadros e dirigentes do PSTU para o PSOL nos últimos meses já é parte de uma negociação com o MES. Esta poderia ser de índole tática, visando apenas as eleições de outubro; ou até mesmo ter dimensões mais estratégicas, com a possibilidade de se unirem num mesmo partido, caso as alas mais petistas do PSOL queiram se separar das sensibilidades mais flexíveis à direita”[3].
 
Demasiadas barbaridades em um só parágrafo. Aclaremos algumas coisas secundárias, como a ideia subliminar de que setores como os encabeçados pelos deputados Ivan Valente e Marcelo Freixo representam a “esquerda” do PSOL ou o delírio de que está tendo uma “debandada de militantes, quadros e dirigentes do PSTU para o PSOL”.
 
Vamos à essência da mentira, escrita de modo esmerado: não existe negociação entre o PSTU e o MES sobre nenhuma união atual ou futura em um partido comum. As razões são muito claras: ambas correntes têm estratégias e programas muito diferentes, e ao mesmo tempo análises e políticas muito distintas diante da realidade brasileira e mundial. Seria demasiado longo e tedioso enumerar aqui todas as polêmicas que fizemos com esta organização política nos últimos anos sobre muitos temas (Venezuela, Grécia, mundo árabe, Brasil, etc.). Mas, se os militantes do MRT não as conhecem, podemos enviá-las.
 
Basta assinalar uma realidade muito concreta: o PSTU se constrói como partido operário socialista e revolucionário independente e integra a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), enquanto o MES se constrói dentro do PSOL (com a premissa de “revolucionários e reformistas juntos”). De nossa parte, não vemos nada que nos faça mudar esta clara delimitação.
 
Mas é impressionante que seja o MRT quem lance esta temerária afirmação. Justamente uma organização que se construiu para entrar ao PSOL e ordenou sua política ao redor deste objetivo. Em qualquer caso, seria o MRT que poderia fundir-se com o MES ou, pelo menos, se seu pedido for aceito, fazer parte do mesmo partido. Não queremos fazer psicologismo, mas alguns chamariam isto de “projeção”.
 
Uma mudança profunda
Dissemos que os ataques ao PSTU foram uma constante da organização que agora se chama MRT. No entanto, quando denominava-se LER, suas críticas vinham de posições sectárias e ultraesquerdistas, como considerar “inaceitável” a formação de uma chapa comum entre a juventude do PSTU e a do MES-PSOL para disputar o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da USP (Universidade de São Paulo).
 
Agora, esta corrente não só se esqueceu do “inaceitável”, mas pede para entrar no PSOL e defende sua política como se já fosse parte desse partido. O que aconteceu no meio deste caminho? Que transformação se deu entre tais posições (opostas, diríamos)?
 
Uma primeira resposta pode ser encontrada no texto do “Manifesto do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, em campanha pelo #MRTnoPSOL”, que lançou a campanha por seu ingresso neste partido.
 
Nesse material, afirma-se:
 
“O PSOL é um partido que, acima de tudo nas últimas eleições com a candidatura de Luciana Genro e diversos deputados, apareceu para um importante auditório de massas como uma alternativa à esquerda do PT. Luciana teve 1,6 milhão de votos com importante expressão do combate aos setores mais conservadores da política brasileira”[4]. Por isso, a proposta do MRT é “lutar com nossas ideias revolucionárias dentro do PSOL para construir uma forte alternativa dos trabalhadores”[5].
 
Pelo contrário, “O PSTU, apesar de levantar pontos corretos de programa, vem abrindo mão de se colocar como verdadeira alternativa, cada vez mais restritos a um sindicalismo que agita na propaganda a ‘greve geral’, mas não dá uma resposta para a crise do PT nem na luta de classes”[6]. Em outro material, o MRT caracteriza que, pela diferença nos votos obtidos por ambos partidos nas eleições, “o que devemos ter claro é que a tendência é a emergência política do PSOL diante da crise do PT e que o PSTU se consolida como uma grande seita sindicalista que desaparece do terreno político”, apesar de reconhecer que “na CSP-Conlutas estão os sindicatos antigovernistas do país”.
 
Passemos a limpo o raciocínio do MRT: o importante para ter peso político e “ser alternativa” é obter muitos votos e deputados. Pelo contrário, ter peso na direção da central na qual se agrupam os sindicatos que lutam contra o governo do PT (isto é, peso estrutural e organizativo na classe trabalhadora), mas poucos votos, é converter-se em uma “grande seita sindicalista” sem futuro político.
 
A doença que afeta ao MRT e que o transformou tem um nome claro: oportunismo eleitoralista, um mau que tem “transformado” grande parte da esquerda brasileira e mundial e, pelo visto, não deixa imunes aqueles que se consideram “super-revolucionários”.
 
É a ação corrosiva da política do imperialismo e da burguesia, que denominamos “reação democrática”. Por um lado, está destinada a evitar ou desviar as lutas e revoluções, levando-as à via morta da democracia eleitoral e parlamentar burguesa. Por outro, a corroer e cooptar as organizações revolucionárias, que acreditam poder “enganar a história” percorrendo um caminho que parece mais fácil (o dos votos e deputados), mas que as leva a transformarem-se em outra coisa e a perder seu caráter revolucionário. Agora parece que a vida se define pelas eleições e o parlamento, e tudo se ordena ao redor disso, embora continuem chamando “à luta”.
 
Para evitar falsas discussões: não sofremos de nenhum “cretinismo” antieleitoral ou antiparlamentar. Tal como defendiam Lênin, Trotsky e a III Internacional, estamos a favor de participar das eleições com nossos candidatos para difundir e popularizar o programa revolucionário entre as massas. No marco dessa atividade, queremos obter o maior número de votos para esse programa e, se for possível, eleger deputados ou parlamentares para que sejam tribunos da classe operária em uma instituição inimiga e ajudem a desgastá-la e destruí-la. O que estamos totalmente contra é de transformar esta em atividade central e no eixo de um partido revolucionário (isto é, em bem mais que “um ponto de apoio secundário”, como dizia Lênin). Ou de medir os avanços e o peso de um partido somente (ou essencialmente) pelos votos que obtém, e não por sua construção estrutural e seu peso nas organizações da classe operária.
 
Na realidade, não foi só o MRT quem contraiu esta doença. Esta organização expressa o contágio do principal partido de sua organização internacional (a Fração Trotskista): o Partido dos Trabalhadores Socialistas – PTS, da Argentina.
 
Esta organização, que começou a “desfrutar” do sucesso eleitoral, como parte da FIT, há vários anos vem atuando como uma organização eleitoralista e parlamentarista, desde a adaptação de sua linguagem (dizendo, como o Podemos espanhol, que o combate é “contra a casta política”), até a transformação de seus deputados (Nicolás do Caño e Myriam Bregman) nas principais figuras e no eixo da ação política do partido, em detrimento de seus dirigentes e quadros operários. Passando pelas táticas parlamentares de apoiar propostas dos deputados kirchneristas (agora na oposição). Assim aconteceu com o apoio a uma postura muito limitada no debate do pagamento aos “fundos abutres”[7] (sem nenhuma referência ao resto da dívida externa ilegítima), sem sequer a justificativa de que seus votos permitiriam brecar esse pagamento.
 
A FT-PTS-MRT provém de uma corrente que rompeu com a LIT-QI e o morenismo (no final da década de 1980) acusando-a de capitular a chamada “teoria dos campos burgueses progressivos e reacionários” e de ser “eleitoralista”. Hoje “leem” a realidade e elaboram suas posições sobre a base do mais puro eleitoralismo (com desprezo total pelo trabalho e o peso nas organizações da classe operária), e terminam capitulando (com um pouco de vergonha, claro) ao campo burguês que encabeça o PT ou a oposição burguesa do kirchenrismo! Não resta senão repetir novamente a frase de Dom Quixote a seu fiel escudeiro: “Cosas vederes Sancho que non crederes” [“Coisas verás, Sancho, nas quais não acreditarás”].
 
Notas:
[1] www.esquerdadiario.com.br
 
[2] Disponível em http://litci.org/pt/mundo/america-latina/brasil/a-queda-de-dilma-seria-um-golpe/
 
[3] http://www.esquerdadiario.com.br/PSTU-e-Luciana-Genro-se-unirao-núm-mesmo-partido#
 
[4] http://www.esquerdadiario.com.br/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=2274
 
[5] Idem
 
[6] Ibidem
 
[7] Os fundos holdouts, ou “abutres” têm origem na moratória da dívida externa em 2001. Após o default, o governo argentino negociou a troca de títulos em 2005 e em 2010, o que permitiu que o país postergasse sua dívida. Com isso, em torno de 93% dos títulos da dívida foram trocados. No entanto, credores do fundo NML Capital – os chamados “fundos abutres” – não aceitaram a proposta do governo argentino e exigiram o pagamento da dívida. [Nota da tradução]
 
Tradução: Rosangela Botelho