A barbárie nossa de cada dia

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A morte de João Victor Souza de Carvalho, jovem negro de 13 anos, filho de catadores de material reciclável, na última segunda-feira (27/02), em frente a uma loja do Habib’s, localizada Zona Norte de São Paulo, foi mais um episódio da barbárie que ronda o cotidiano da realidade brasileira. O garoto foi perseguido e espancado por um segurança e o gerente do Habib’s. Segundo sua mãe, Silvia Helena Crot, ele teria levado um golpe na cabeça do segurança. Gravações de uma câmera mostram parte da perseguição e, depois, uma cena revoltante do garoto já inconsciente sendo arrastado pelos dois funcionários como um saco de batatas.

Fizeram isso com o meu filho por causa de uma moeda”, bramia exausta, e clamando por justiça, a mãe do garoto no ato realizado no dia 2 de março em protesto ao assassinato.

A revolta pela morte do adolescente gerou uma campanha de boicote ao Habib’s, que tenta se esquivar de qualquer responsabilidade sobre o caso jogando para a vítima a culpa pelo ocorrido: “A polícia foi acionada, assim que verificaram que a conduta do menor estava incontrolável, ameaçando o patrimônio físico da loja e dos clientes. Diante do estado do jovem, imediatamente, também o resgate foi acionado”, disse a empresa.

A morte do adolescente soma-se a outros episódios de barbárie social ocorrido nas últimas semanas. E não são poucos. A escancarada violência machista fez com que uma mulher fosse agredida a cada quatro minutos durante o Carnaval do Rio de Janeiro. No total, segundo a Polícia Militar, foram 2.154 chamadas para atender ocorrências de violência contra a mulher. Pouco antes, uma liminar do Supremo Tribunal Federal concedia liberdade ao ex-goleiro Bruno, condenado por matar em 2010 a ex-namorada Eliza Samudio. A libertação do criminoso, às vésperas do Dia Internacional de Luta das Mulheres, é uma verdadeira provocação a todos que lutam contra a violência machista. E ainda teve gente que tirou selfie com o goleiro quando este saía da prisão.

Cenas de presos sendo decapitados em presídios, das chacinas que se proliferam nas periferias dos grandes centros urbanos, linchamentos, racismo contra a população negra e indígenas, entre muitas outras, são evidências claras da degradação social e da bestialização que empesteiam nosso cotidiano. Fenômenos que sempre tendem a se ampliar em períodos de longas crises sociais. Contudo, no caso brasileiro, é sempre importante levar em consideração a nossa formação social e histórica. Não se pode entender a violência e bestialidade sem levar em consideração os quase 400 anos de escravidão no Brasil. Racismo, estupros, humilhação e toda forma de degradação humana foram os traços marcantes da nossa velha sociedade escravocrata. Assim como o patriarcalismo e o grande latifúndio, heranças que ainda pesam sobre a nossa estrutura social.

O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo no Brasil não mostrou nenhuma contradição com esses elementos. Ao contrário, são permanências que se tornaram parte constitutiva do sistema e úteis para sua dominação ideológica, dividindo “os debaixo” para que os “de cima” possam sempre governar.

A barbárie da civilização
A barbárie nossa de cada dia não tem nada a ver com uma interpretação evolucionista da história, no qual se subentende um tipo de desenvolvimento linear da humanidade, onde a barbárie seria algum tipo de desvio de trajetória da sociedade rumo à civilização. Não. Não se trata de uma distinção entre romanos ou não-romanos, ou entre ocidentais e orientais, habitantes dos centros e das periferias. Esse tipo de visão tem como resultado a expulsão daqueles que são considerados “selvagens” para fora da humanidade. Subjuga os “selvagens sem almas”, os “atrasados” e o seu destino aos ditos “civilizados”, detentores do progresso. Afinal, não foi essa concepção que ofereceu um dos principais componentes ideológicos para justificar o desenvolvimento do capitalismo à expensa do genocídio indígena e da escravidão negra nas Américas?

Marx foi muito preciso quando denunciou a barbárie como um componente inseparável da civilização burguesa, como escreveu em “Os futuros resultados do domínio britânico na Índia”. A “barbárie inerente da civilização burguesa” foi aquela que se expressou na devastação imperialista que transformava imensas regiões do planeta em meros fornecedores de matéria-prima e que provocou, no caso do imperialismo britânico do século XIX, os “holocaustos vitorianos”, na feliz expressão utilizada por Mike Davis.

O papel da força e da brutalidade na história do capitalismo, parteira da nossa civilização, também foi amplamente descrito pelo velho filósofo alemão no conhecido capítulo 24 do “O Capital”, sobre a acumulação primitiva.

A “barbárie dentro da civilização” é a brutalidade proporcionada pela exploração da força de trabalho pelos capitalistas. A exploração que embruteceu relações sociais, condenou a classe operária à fatiga, ao sofrimento e ao trabalho alienado, e, por fim, degenerou a solidariedade em prol da competição entre indivíduos. Hoje, por maior que tenha sido o desenvolvimento técnico-científico, a grande massa da classe trabalhadora continua a cumprir jornadas de trabalho extenuantes, adoecem do corpo e da alma e quando se rebelam são brutalmente castigados.

Na civilização do Capital, a dominação do “homem pelo homem” tem como par a dominação exercida sobre a natureza. Marx compreendia a relação sociedade-natureza como uma troca metabólica contínua com o meio ambiente natural. Uma troca regulada por relações sociais que podem ou não permitir a recuperação dos sistemas naturais. Contudo, já na sua época apontava para a “falha metabólica” provocada pelo capitalismo por meio da superexploração dos solos e a imposição de novas técnicas agrícolas. “Todo o espírito da produção capitalista, que é orientada para os lucros monetários mais imediatos – é contraditório com a agricultura, que precisa se preocupar com toda a gama de condições de vida permanentemente exigidas pela cadeia de gerações humanas”, sentenciava o revolucionário alemão.

Para além da sua extraordinária clareza sobre a “insustentabilidade ambiental” do capitalismo, Marx talvez nunca tenha imaginado a dimensão atingida pela ruptura nos sistemas naturais causadas pelo sistema. As crises ambientais, expressas nas mudanças climáticas, no esgotamento dos solos, na contaminação química do ecossistema, e nas concentrações de gases como óxido nitroso, metano, dióxido de carbono, entre outros, fazem que alguns geólogos apontem hoje que vivemos em uma nova época geológica, o Antropoceno – diferente do Holoceno, período de cerca de 10 mil anos de estabilidade climática ao longo do qual a civilização humana floresceu.

Socialismo ou barbárie
A conhecida disjuntiva histórica “socialismo ou barbárie” foi sugerida pela primeira vez por Marx e Engels em seu Manifesto Comunista, de 1848. “A história de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história das lutas de classes” – escreveram, sem deixar de notar que não há uma única direção para o desenvolvimento histórico, pois na luta entre opressores e oprimidos “sempre terminou ou por uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela destruição das duas classes em luta”.

Em 1877, em um momento em que a civilização burguesa havia se consolidado em toda a Europa e a expansão colonialista tomava conta das regiões periféricas do planeta, Engels apontou a flagrante contradição entre “as forças produtivas engendradas pela produção capitalista moderno” com o seu sistema de repartição. Ou haveria uma mudança radical do modo de produção e repartição ou toda sociedade moderna iria se extinguir, escreveu.

A análise econômica de Engels foi completada décadas mais tarde pela análise política de Rosa Luxemburgo que, revisitando a disjuntiva, apontava a necessidade do proletariado solucionar a alternativa histórica. “Nós nos encontramos hoje, tal como profetizou Engels há uma geração, diante da terrível opção: ou triunfa o imperialismo, provocando a destruição de toda a cultura e, como na Roma Antiga, o despovoamento, a desolação, a degeneração, um imenso cemitério, ou triunfa o socialismo, ou seja, a luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo, seus métodos, suas guerras. Tal é o dilema da história universal, sua alternativa de ferro, sua balança oscilando no ponto de equilíbrio, aguardando a decisão do proletariado”, vaticinou a revolucionária polaca.

Para ela, o socialismo é uma possibilidade histórica, mas é a intervenção consciente do proletariado, fundamentada nas contradições internas do capitalismo, é que vai decidir a questão, para onde “vai pender a balança”. As palavras de Rosa ecoam enquanto a barbárie bate a nossa porta.