8 de março em Natal: Sobre a unidade, quem topou essa parada?

2016

Há tempos que o contexto internacional vem apontando o protagonismo dos setores mais explorados e oprimidos da classe trabalhadora, em especial as mulheres. Apesar da intensificação da crise econômica, que exige que o imperialismo e os governos apliquem medidas duras para recuperar seus lucros, a nossa classe tem dado exemplo de lutas e muita resistência.

O ascenso das lutas das mulheres vem se destacando no mundo inteiro. Em alguns países é possível ver o levante das mulheres em defesa de pautas específicas, como a violência machista, contra o feminicídio, pelo direito ao próprio corpo, mas também em reivindicações mais gerais se somando aos demais setores da nossa classe, em defesa do emprego, saúde, educação e moradia.

As manifestações pelo “Ni Una a Menos” se iniciaram em 2015 na Argentina e se generalizaram por toda a América Latina em 2016. A greve de mulheres na Polônia contra as mudanças na legislação do aborto, as mobilizações pela igualdade salarial na Islândia e por direitos reprodutivos na Coréia do Sul, bem como a marcha das mulheres nos Estados Unidos, são alguns exemplos.

No Brasil, a luta das mulheres vem crescendo desde as manifestações de Junho de 2013, quando tomaram as ruas contra o aumento da passagem, que transformou essa pauta em outras, como em defesa da educação, saúde, emprego. Assim como pelo “Fora Feliciano” e contra o PL 5069 de Cunha e mais recente com as manifestações contra a cultura do estupro.

Em Natal: Sobre a unidade. Quem topou essa parada?
O dia 8 de março em Natal foi construído há mais de um mês. Uma construção coletiva em um espaço diverso com mulheres diversas, organizadas e não organizadas. Foram em torno de cinco reuniões para construir esse dia muito importante. Um marco para o movimento feminista de Natal. As reuniões foram recheadas de debates políticos fundamentais, com visões diferentes, mas com o respeito mútuo entre as companheiras. A unidade foi expressa desde o início da construção do ato, da importância de unir as mulheres para derrotar a reforma da Previdência do governo Temer e para fortalecer a luta contra as violências machistas que sofremos, dos governos e do cotidiano da vida. Mas, apesar dos esforços, o 8 de março em Natal não teve esse tom de unidade.

As companheiras do PT que constroem a Frente Brasil Popular (FBP) romperam com a unidade quando decidiram construir um outro ato à tarde. Na segunda reunião da construção do ato, as companheiras propuseram que o 8 de março fosse chamado pela FBP. A justificativa foi que elas não queriam escutar críticas ao PT nas falas de organizações que tem diferenças profundas sobre o que foram os 14 anos do governo do PT. A maioria das mulheres que estavam na reunião foi contra essa proposta e reafirmou a unidade e o espaço que já vinha construindo. No entanto, as companheiras do PT insistiram na construção do ato pela Frente Brasil Popular, rompendo com a construção do nosso ato.

O ato ainda demonstrou que precisamos de unidade, mas não a qualquer custo. A organização do ato optou em reunião, por maioria, não fazer nenhuma nota convocando as companheiras do PT para a unidade, uma vez que a Frente Brasil Popular em reunião presencial disse que não haveria unidade nos termos propostos.

É preciso ressaltar que a construção da unidade é pautada com base em acordo em comum com as pautas construídas e na necessidade da luta conjunta contra os fortes ataques contra as mulheres. No entanto, as companheiras do PT privilegiaram a sua visão específica da conjuntura e não queriam construir um ato que garantisse a pluralidade e democracia.

As companheiras tanto não queriam a unidade que o seu ato ocorreu no turno da tarde e dias antes do 8 de março. Com o ato unitário já sendo divulgado para ocorrer de manhã, elas marcaram outras atividades para o mesmo período, além de manter a convocação do ato pela Frente Brasil Popular.

A CSP-Conlutas corretamente tentou a unidade a todo momento, no entanto, em sua executiva foi deliberado que só haveria a participação da central no ato da tarde caso o conjunto do movimento de mulheres conseguisse a unificação. Ao final isso não ocorreu, após inúmeras tentativas e reuniões.

Infelizmente, algumas companheiras de outras organizações se recusaram em responsabilizar o PT pela ruptura do ato e não quiseram fazer a denúncia para justificar a unidade.

Nós, da Secretaria de Mulheres do PSTU, que construímos o 8 de março desde o início, participando de todas as reuniões, ressaltamos que a divisão do 8 de março em Natal é um atraso para o movimento de mulheres do mundo inteiro. Romper com o ato porque não aceitam as diferenças e a denúncia, que no governo de uma mulher, Dilma esteve distante dos anseios e dos problemas das mulheres trabalhadoras, que durante o governo do PT foi investido R$ 0,26 centavos por cada mulher em políticas públicas de combate à violência contra a mulher, que foi no governo do PT que as medidas provisórias 664 e 665 foram implementadas, atacando nosso acesso a benefícios como seguro-desemprego, pensão por morte e licença saúde, e foi ainda durante seu governo que começou a ser gestada a reforma da Previdência.

É lamentável que a ruptura tenha ocorrido em um momento tão importante da luta das mulheres, em que mais de 40 países convocaram uma greve de mulheres e ecoaram um só grito de basta de violência, que chega de sermos oprimidas. Foi assim o 8 de março em todo o mundo, com um caráter internacionalista. O momento pede unidade para derrotarmos o nosso maior inimigo. Seja na figura de Temer, de Trump, de Dória em São Paulo, de Pezão no Rio de Janeiro, de Carlos Eduardo e Robinson Faria aqui no Rio Grande do Norte.

Apesar do 8 de março em Natal ter sido dividido, o ato construído por coletivos, sindicatos combativos, organizações independentes do governo, com mais de 25 entidades assinando o manifesto, além de mulheres independentes e partidos políticos, começou logo cedo com uma caminhada pelas ruas de Natal e se estendeu com atividades culturais feministas até o final da tarde.

Nós fizemos um ato muito bonito, com mais de 350 pessoas nas ruas de Natal, denunciando os ataques dos governos e dizendo em alto e bom som que se nós mulheres não somos importantes, que produzam sem nós! Que nós mulheres queremos ser respeitadas.

Não dá para ser omissas e de forma oportunista se calar. Unidade assim não queremos, sejamos consequentes. Só assim vamos poder avançar para uma grande Greve Geral para derrubar as reformas e todos os ataques de Temer, é urgente a unidade da classe trabalhadora para derrubar também o Congresso Nacional picareta e reacionário.

Mas, queremos mais que isso. Acreditamos que é possível construir uma sociedade socialista, em que nós mulheres estejamos livres da opressão, que possamos viver sem medo ao sair de casa e sermos surpreendidas com a violência machista. Que sigamos em frente na certeza de não termos nenhuma a menos. Viva a luta das mulheres trabalhadoras.