Podemos: a crise de um projeto

Escrevemos este artigo nas vésperas da celebração do Vistalegre 2, o segundo congresso do Podemos. É um congresso de tensão máxima, dominado pela crise interna e o raivoso conflito entre os maiores dirigentes, com apoios aparentemente similares.

Neste choque, personalizado em dois egos desmedidos, está em jogo o controle do aparato do partido, o discurso e o próprio cargo de secretário-geral. Depois de um pré-congresso cheio de manobras e ataques pessoais nas redes sociais, com um nível político muito baixo e um estilo próprio de campanha eleitoral, alguns consideraram a possibilidade de uma ruptura. Mas não parece a hipótese mais provável, pelo menos em curto prazo: é de se esperar, pelo contrário, que o congresso termine com um armistício instável que não encerrará uma crise de saída incerta.

A crise não é de agora
Diferentes comentaristas dizem que a crise do Podemos começou quando o partido não ganhou as eleições gerais e, consequentemente, não chegou ao governo. Mas é muito duvidoso que os dirigentes do Podemos pensassem neste cenário. Esperavam, por outro lado, superar o PSOE e se tornar a principal força da oposição. Mas isso não aconteceu e provocou os primeiros conflitos significativos entre Iglesias e Errejón, até então unha e carne.

Estamos diante da crise de um aparato eleitoral que em pouco tempo subiu como um foguete, impulsionado pelos meios de comunicação e apoiando-se na necessidade de uma mudança social e política profundamente sentida. Este aparato foi decisivo para desmobilizar a luta e reconduzi-la à via eleitoral. Acabou, também, dando oxigênio ao PSOE, quando este se encontrava à beira do abismo.

A crise atual vem se gestando desde que começaram as vitórias eleitorais. Em apenas dois anos, enquanto o Podemos obtinha vários cargos em parlamentos das regiões autônomas e câmaras municipais, os círculos de base se esvaziavam e se construía uma pesada estrutura de cargos e liberados, repleta de arrivistas. Entretanto, a ilusão que despertou em muitos setores populares ia se esfriando, enquanto muitos eleitores começavam a ver que o Podemos não era o grande instrumento da “mudança” que esperavam, mas sim um partido cada vez mais integrado ao sistema.

Os setores mais mobilizados foram os que mais se desencantaram com o comportamento do Podemos nos parlamentos e câmaras municipais, em particular naqueles lugares onde detém a prefeitura, sendo Madri o caso mais notório, onde a prefeita Carmena considera que o programa eleitoral é um catálogo de boas intenções que se pode descumprir sem maiores problemas. Daí sua hostilidade com a PAH (Plataforma dos Afetados pela Hipoteca) ou com os defensores da remunicipalização dos serviços públicos.

A amarga disputa entre Iglesias e Errejón acontece num momento em que, depois do longo período eleitoral e de uma melhora econômica desigual, frágil e transitória, o deslocamento político das classes médias parece ter se detido. O conteúdo da disputa é como preservar melhor este aparato eleitoral nas atuais circunstâncias. Além disso, a fragilidade do enraizamento operário e popular do Podemos, o estilo e a estrutura caudilhista do partido, a composição social de seus quadros e o ego fora do comum de seus maiores dirigentes, ajudam a explicar as formas que o seu enfrentamento tomou.

O que Errejón representa?
Errejón responde às pressões sociais daqueles setores das classes médias que não querem ir além da regeneração do regime. É a eles que oferece um “projeto de normalidade alternativa”. É para eles que defende um Podemos “patriótico” que exclui toda perspectiva de ruptura e que aposta na integração às instituições do regime, as quais considera “resultado de anos de confiança e esforço coletivo” que é preciso “recuperar”.

Já durante as últimas negociações de composição do governo, Errejón se mostrou partidário de apoiar um governo presidido por Pedro Sánchez aliado ao Ciudadanos. Agora, questionado se acredita que a prioridade é manifestar-se na rua ou “ser útil” a partir do cargo, responde de forma clara: “Nitidamente, demonstrar às pessoas que somos úteis desde já”. Não se trata – diz – de “cavar trincheiras, protagonizar protestos e endurecer nossa formação política”, mas sim de entrar em uma dinâmica de pactos e negociações parlamentares com o PSOE, assim como com o Ciudadanos e outras forças políticas, com o objetivo de ir aprovando medidas parciais. A batalha inicial do Podemos contra o bipartidarismo já está bem enterrada. Agora, a relação com o PSOE deve ser feita “de maneira inteligente e laica”, em contraposição à “negociação obsessiva e o choque frontal”.

Encerrando seu discurso, Errejón reivindica “deixar para trás as etiquetas de esquerda e direita”, exige se dirigir “além dos setores mais empobrecidos” e abrir os braços para as classes médias. Nesta política, a aliança com a IU (Esquerda Unida), que “não pareceu funcionar” eleitoralmente, apresenta-se como um obstáculo.

O setor de Pablo Iglesias
Os meios de comunicação apresentam Pablo Iglesias como um radical se enfrentando com o “moderado” Errejón. Mas Iglesias não é nenhum esquerdista perigoso. É o mesmo que, há apenas seis meses, clamava contra “essa idiotice que dizíamos quando éramos de extrema esquerda, de que mudamos as coisas nas ruas e não nas instituições”.

Ele foi – junto a Errejón – o artífice do verticalismo organizativo do Podemos e da renúncia a todas e cada uma das reivindicações de ruptura do primitivo manifesto “Mover Ficha”. O “patriotismo” e o abandono da perspectiva de classe é também patrimônio comum de ambos: para eles não há burguesia, mas sim “elites”; não há classe trabalhadora, mas sim “gente” ou “pátria”.

Foram Iglesias e Errejón juntos que colocaram fim à campanha contra o bipartidarismo para passar a pactuar com o PSOE, até então membro “da casta”, nos parlamentos e câmaras municipais. Do mesmo modo, foram ambos que assumiram o marco e os limites da União Europeia e que deixaram de questionar o “regime de 78”, abandonando a luta pela República e por uma ruptura constituinte e assumindo a institucionalidade vigente.

São ambos, Iglesias e Errejón, que assumiram a “plurinacionalidade”, mas o fizeram com uma manobra, porque nenhum dos dois defende na prática o direito à autodeterminação dos catalães, aos quais condenam a esperar uma vitória eleitoral futura e de goleada do Podemos, uma hipótese tão duvidosa quanto longínqua.

Na realidade, Iglesias é a ambiguidade calculada em que tudo depende das expectativas eleitorais e da correlação de forças interna. Sua trajetória oportunista e seu enorme ego o desacreditaram fora e o debilitaram dentro do seu próprio partido.

Atualmente, Iglesias entende que a tática de Errejón é nociva e que, se levada a cabo, diluiria o Podemos de tal forma que o impediria de concorrer ao governo em 2020. “Se nos subordinarmos à lógica institucional – diz Iglesias – nos dissolveremos”. Por isso, mirando nas próximas eleições gerais, ele defende que o Podemos deve “dividir sua ação política nas instituições e na rua”, “estar nas lutas sociais” e fazer de seus parlamentares “ativistas institucionais”. Ainda que a verdade seja que sua presença nas mobilizações tem caráter midiático e está mediada por sua aliança com a burocracia sindical da CCOO-UGT (Confederação Sindical de Comissões Operárias – União Geral dos Trabalhadores), a grande defensora do “diálogo social” de tão triste lembrança e a responsável por manter o movimento operário sob controle.

Nesse contexto, para Iglesias, os vínculos da IU com o aparato da CCOO já justificariam a aliança eleitoral. Do mesmo modo, está literalmente obrigado a defender que o Podemos deve formar parte de “algo mais amplo”, já que, em comunidades autônomas como a catalã ou a galega, tem um peso escasso em relação às confluências territoriais.

Além disso, o futuro “governo alternativo” de Iglesias para 2020 contaria com “os melhores” especialistas, mas estaria muito distante de ser um governo de ruptura que vá à raiz dos problemas. Não só porque seria um governo de aliança com o PSOE, mas também porque seu programa econômico não passaria de um keynesianismo moderado e porque estaria sujeito à institucionalidade do regime e submetido aos ditames da UE. Não é estranho que Iglesias, assim como Errejón, sempre tenham se negado a criticar Tsipras, hoje o agente da Troika na Grécia, e não tenham dito nada sobre o que fariam numa situação similar.

A postura do Anticapitalistas (Podemos em Movimento)
Antes de entrar no tema, cabe primeiro agradecer a Miguel Urbán por ter negado sua vinculação com o trotskismo: “Nós [Anticapitalistas] procedemos de uma tradição mais diversa e múltipla. Alguns dizem que somos trotskistas, mas não acredito, de verdade. Estamos mais vinculados aos novos movimentos internacionalistas como o zapatismo”. Como membros de uma organização que se reivindica do trotskismo, ficamos felizes com o esclarecimento.

O Anticapitalistas vive com preocupação a grande tensão do Podemos, mas, ao mesmo tempo, busca aproveitar a ocasião para blindar suas zonas de influência e ser reconhecido como “grupo de afinidade”. Podemos-Andaluzia, por exemplo, já se declarou “partido autônomo e federado”, com finanças e candidaturas eleitorais próprias.

Em seus documentos, qualificam o PSOE como “o braço esquerdo do regime” e reivindicam um Podemos com “força antagônica ao PSOE-PP”. No entanto, Urbán, em suas intervenções públicas, refere-se continuamente ao PSOE “da Direção”. Entrevistado no Sexta Noche, à pergunta “Um pacto com o PSOE não o contemplaria em nenhuma circunstância?”, respondia “Não, eu não estou dizendo isso. De fato, temos acordos com o governo do PSOE em comunidades autônomas e em câmaras municipais. Eu estou dizendo que não vamos chegar a nenhum acordo com políticas que sejam prejudiciais para as maiorias sociais, que no final empobreçam as pessoas e gerem mais desigualdade”. Na verdade, observando detalhadamente seu documento político, o rechaço não é a um governo de coalizão com o PSOE como tal, mas sim “participar em governos liderados por este partido”.

Enfatizam muito que o Podemos não deve “mimetizar-se com o bipartidarismo” nem “tornar-se apenas mais um partido”, desvinculado das lutas sociais. Mesmo que Urbán “enriqueça” o conceito: “Mobilização social – diz – é construir tecido social. É criar cooperativas de consumidores e produtores, que são os que estão combatendo o oligopólio energético neste país (…) todo esse trabalho de economia social e solidária que começa a se articular nos bairros (…) devemos desenvolver um plano para que esses projetos não se limitem a iniciativas dispersas, mas que sirvam de preparação transformadora do país antes de ganhar as eleições” (entrevista de Gorka Castillo em ctxt.es, 27/1/17). Por outro lado, assim como Iglesias, também não se ouvem da boca de Urbán palavras de denúncia e exigência à burocracia da CCOO-UGT por sua passividade cúmplice diante da UE, do governo e da patronal. É que, analisando bem, para o Anticapitalistas, “o grande debate é como ocuparemos o espaço político-eleitoral que o PSOE está deixando órfão”.

Um ponto central que apenas mencionam é a disputa catalã. Na verdade, sua posição a respeito do plebiscito não difere da de Iglesias: o defendemos em abstrato, mas nos opomos na prática enquanto o Estado não o permita.

A grande bandeira do Anticapitalistas para se diferenciar de Iglesias são “as lições da Grécia” e a “estratégia desobediente” diante da UE. Eles têm razão quando dizem que “uma estratégia que busca a negociação e, em último caso, o acordo nos tratados europeus é uma via que nos conduziria (também o Podemos) à submissão e à chantagem permanente”. Da mesma forma, parece coerente defender que não se pode “acatar os limites ao déficit público, nem os projetos de controle da UE das reformas fiscais e da negociação salarial”, assim como defender a suspensão do pagamento da dívida e uma auditoria. Mas o que é incompreensível é a sua obstinação em se negar a reconhecer a principal lição da Grécia: que não é possível atender as reivindicações básicas da maioria trabalhadora sem romper com a UE e o euro. Evidentemente, diante da UE, é imprescindível uma alternativa internacionalista, mas esta só pode ser construída na luta para demolir esta máquina de guerra social do grande capital europeu.

Também é de se questionar como esta “estratégia desobediente” se encaixa com uma ideia da “reconfiguração das forças que estão emergindo diante da dividocracia”, na qual incluem, junto ao Podemos, os que apoiam um governo do PSP em Portugal, Sanders nos Estados Unidos, Corbyn na Inglaterra ou Mélenchon na França, quando todos eles são forças reformistas partidárias de uma impossível “refundação da UE”.

Não queremos deixar de mencionar o silêncio do Anticapitalistas diante do massacre do regime de Assad contra o povo sírio. Em suas declarações públicas, não dizem uma palavra a respeito e, em seu documento político, resolvem o tema com uma lamentável menção à “guerra multipolar no Oriente Próximo”. É algo que fala muito mal de seu internacionalismo.

Nossa posição
Diante do Podemos e de suas diferentes opções em disputa, reafirmamos a necessidade de avançar na construção de um partido revolucionário e internacionalista, arraigado na classe trabalhadora e em suas lutas. Uma tarefa inseparável da batalha por buscar uma saída à crise por baixo e pela esquerda, impulsionando as Marchas da Dignidade, reforçando o sindicalismo combativo de classe, fortalecendo o movimento em defesa das aposentadorias públicas, das lutas estudantis e populares, colocando de pé, em suma, uma potente oposição operária e democrática a este governo servil da Troika (na verdade, um cogoverno do PP com o PSOE).

Em relação ao Podemos, vamos exigir que ponha de verdade seus cargos a serviço das mobilizações, que apoie sem reservas os/as trabalhadores/as rurais da Vega del Guadalquivir, que apoie mais do que com palavras as Marchas da Dignidade e que respalde o plebiscito unilateral na Catalunha. Muita gente depositou neles seu voto e esperanças. É sua obrigação fazê-lo.

Felipe Alegría (Corriente Roja)