Marcos Margarido, da redação Atualmente,
toda livraria tem uma seção de auto-ajuda
com centenas de livros. Uma rápida olhada pelos
títulos nos mostra os temas mais freqüentes:
a busca pela felicidade e o enriquecimento fácil,
o qual, por sua vez, nos transportaria ao reino da alegria.
O tema da felicidade também está nas universidades.
Um dos cursos mais populares em Harvard é um ciclo
sobre a questão da felicidade. Segundo pesquisadores
de Harward e de Cambridge, “entre 50% e 80%
da variação entre os diferentes níveis
médios de felicidade que as pessoas ostentam pode
ser explicada por seus genes, e não pelas experiências
de vida pelas quais elas passam”. Isto é,
a felicidade depende mais de uma estrutura genética
favorável do que de nosso esforço para alcançá-la.
O papel dos cientistas seria, então, desenvolver
técnicas e remédios para ativar as regiões
do cérebro responsáveis pela sensação
de felicidade do homem.
Esta discussão não é nova. Por exemplo,
o escritor russo Fiódor Dostoievski escreveu no
fim do século 19, em “A Sentença”:
“Preferiria viver como os animais, que são
inconscientes. Parece-me que a consciência, longe
de cooperar para a harmonia geral, é causa de cacofonia,
visto como me faz sofrer. Olhem as pessoas que são
felizes neste mundo, as que consentem sofrer! São
precisamente os que parecem com os animais, que se aproximam
da besta pelo desenvolvimento limitado da consciência,
os que vivem vida brutal, que consiste unicamente em comer,
beber, dormir e procriar”. Para o ser humano
amargurado descrito pelo escritor, é mais feliz
o homem que vive como um animal, satisfazendo-se apenas
com as necessidades biológicas básicas,
por viver na ignorância.
Podemos pegar um exemplo atual, como o ex-cineasta Arnaldo
Jabor, que fez um diagnóstico da chamada “sociedade
de consumo” em um de seus artigos no jornal O Estado
de S. Paulo. Ele diz que “felicidade é
entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar
alguém a ser consumido. Felicidade é ter
um bom funcionamento... Hoje, nós somos extensão
das coisas. Fulano é a extensão de um banco,
sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito
um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um eletrodoméstico,
um ‘avião’, peituda, bunduda, o homem
quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente
e, mais que tudo, um grande pênis voador sem flacidez
e angústias. Confundimos nosso destino com o destino
das coisas”. Jabor resigna-se no caminho de
que fala Dostoievski. “Para a felicidade, -
diz ele - só nos resta ‘não ver’.
Fechar os olhos”. Isto é, também
viver feliz na ignorância.
Pelas opiniões acima - a “científica”,
a de um escritor do século 19 e de outro do mundo
moderno - a felicidade plenamente humana é inalcançável
neste mundo, com uma ressalva para os felizardos sorteados
na “loteria dos genes”. Eles também
consideram que a felicidade é interna ao homem,
seja algo concreto (os genes) ou um ideal (um estado de
espírito) e que o homem feliz é comparável
a uma “coisa”. Uma coisa manipulável
pela “psicologia positiva” no primeiro caso,
uma coisa do tipo animal irracional no segundo e um objeto,
no terceiro.
Este especial do Portal do PSTU apresenta um resumo da
visão marxista sobre a alienação
e sua relação com a religião, o trabalho
e a mercadoria. Esperamos que os textos a seguir contribuam
de forma desalienante, para que mais e mais trabalhadores
e jovens encontrem um sentido em suas vidas e lutem para
transformar a sociedade em que vivemos. Boa leitura.