2008: Documento Nacional de Mulheres

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Este documento foi debatido no VI Congresso, que resolveu publicá-lo e garantir sua discussão em todos os núcleos e instâncias.

Apresentação
Sabemos que este documento está atrasado e é muito importante na atual situação do Partido. Esperamos que ele possa ser base para o início de um grande debate sobre o combate ao machismo. Ele foi apresentado ao congresso e base para a discussão sobre o ponto de mulheres. Por resolução deste, o documento deve ser discutido em todos os organismos do Partido.

Nós acreditamos existir acordo entre todos nós sobre o corte de classe na luta contra as opressões e, nesse sentido, temos uma concepção de emancipação das mulheres oposta à das visões burguesas e/ou reformistas de conciliação de classes. Também acreditamos existir acordo entre nós sobre a necessidade de rejeitar a visão stalinista sobre este tema. Então este texto sobre mulheres procura dar conta dessa totalidade.

Do ponto de vista desse nosso Congresso, achamos necessário responder em primeiro lugar à questão do machismo no Partido.

E também como parte do nosso projeto de proletarização pensamos que é chegada a hora de dar maior hierarquia à questão da opressão das mulheres na nossa política, e na nossa intervenção.

Como diz o Programa de Transição

Lugar às mulheres trabalhadoras! (…) Todas as organizações oportunistas, por sua própria natureza, concentram sua atenção principalmente nas camadas superiores da classe operária e, consequentemente, ignoram igualmente a juventude e as mulheres trabalhadoras. Ora, a época do declino capitalista atinge cada vez mais duramente a mulher, tanto como assalariada quanto como dona-de-casa. As seções da IV Internacional devem procurar apoio nas camadas mais oprimidas da classe operária e, consequentemente, entre as mulheres trabalhadoras. Encontrarão as inesgotáveis fontes de devoção, abnegação e espirito de sacrificio.[1]

Esperamos que esse documento sirva como um ponta-pé inicial para o V Encontro de Mulheres do PSTU, que devemos realizar no final de 2008.

Introdução
Constatamos um avanço importante do machismo na sociedade, como mais uma expressão da decadência desse sistema capitalista/imperialista e, ainda mais grave, em episódios de machismo no interior do nosso Partido, acendendo um alerta vermelho, mostrando que não ficamos imunes, ao retrocesso político, programático, ideológico e moral destes anos reacionários. Que frente a esse retrocesso, no que concerne a opressão das mulheres, baixamos a guarda e precisamos reagir e reverter tal situação.

Se os episódios de machismo não forem rigorosamente combatidos e revertidos, vão comprometer nossos princípios, nosso programa, nossa ideologia e nossa moral revolucionárias.

Talvez, em toda nossa história, nunca tenhamos internamente retrocedido tanto na questão das opressões em geral e da opressão da mulher em particular. No vácuo, na ausência de combate à altura, tem penetrado neste terreno não só a moral burguesa e o relativismo da pós modernidade, mas também um programa, uma ideologia e uma moral machista.

É por ter constatado a gravidade desta situação e a responsabilidade especialmente da direção nesta questão, que incluímos a discussão sobre a opressão das mulheres na pauta do nosso Congresso.

É neste contexto também, que temos procurado tomar uma série de outras medidas e atitudes, como foi o apoio incondicional à realização do Seminário da LIT sobre mulheres, uma re-valorização da política do meio ponto para forjar e promover quadros mulheres á direção do Partido em todos os níveis, a busca pelo fim da tolerância e impunidade para os casos de atitudes machistas, o apoio à Secretaria de Mulheres e, sobretudo, a busca por tomar este tema como uma responsabilidade da direção e não apenas das Secretarias Nacional e Regionais de Mulheres.

Junto com isso, a existência de um processo de reorganização do movimento, tem nos colocado o desafio de respondermos externamente em outro patamar com uma política de classe à questão das opressões: de mulheres, negros, LGBTs, indígenas, imigrantes, saindo de uma atuação meramente propagandista para intervir nestes setores com um programa e política de classe. Porém, capaz efetivamente de organizar os setores oprimidos da classe trabalhadora, especialmente da classe operária, para que a luta contra a opressão tenha vez e voz na luta de classes contra o capitalismo.

Sustentamos que 50% da classe é formada de mulheres e que nosso projeto de proletarização quer organizar, trazer para o Partido, também as mulheres operárias. Para isso, como já dizia Lênin, Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e tantos outros revolucionários, é preciso ter uma política especial para as mulheres.

Para que a classe operária possa acaudilhar os oprimidos, é preciso incorporar de verdade, e não como uma saudação à bandeira nos dias de festa e para um futuro indeterminado, a luta contra as opressões no cotidiano, como expressão de nossa estratégia e programa históricos. A classe operária e os revolucionários não podem deixar nas mãos do feminismo burguês ou reformista as bandeiras contra a opressão das mulheres.

Lênin dava excepcional importância à luta contra a opressão das mulheres e apoiava decididamente Clara Zetkin na sua luta contra o machismo, inclusive no interior do Partido. Dizia ele sobre a concepção “reinante” no partido comunista alemão, que não via necessidade e importância num trabalho especial de mulheres, revelando, por trás dessa concepção, machismo:

“As vezes, o reconhecimento da necessidade e do valor de um potente movimento feminino comunista, que tenha pela frente um objetivo claro, é um reconhecimento platônico de palavra e não uma preocupação e um dever constante do partido. (…) concebem (…) como algo secundário (…) tarefa que afeta exclusivamente as mulheres comunistas (…) atribui-se às comunistas o fato desta tarefa não avançar com a devida rapidez e energia. Isto é injusto, totalmente injusto. E sobre como as seções da internacional encaravam na prática o trabalho de mulheres, dizia: “Em última análise, isso não é outra coisa que uma subestimação da mulher e de seu trabalho. Assim é lamentável, pode-se dizer: “conheça melhor um comunista, aí encontrará um filisteu” [2] 

Nós, ao contrário das feministas burguesas ou reformistas ou autonomistas ou pós modernas ou radicais, não temos nenhuma dúvida de que o eixo ordenador do nosso programa é a ditadura do proletariado e a revolução socialista, pois não temos dúvida de que não é possível acabar com a opressão das mulheres sob o capitalismo. Temos acordo integral com a IIIª Internacional quando diz que:

“(…) A realização da ditadura do proletariado (…) Eis o objetivo que deve definir os métodos de ação e a linha de conduta do proletariado dos dois sexos (…)O interesse da classe operária exige (…) com uma força particular, a entrada das mulheres nas fileiras organizadas do proletariado que combate pelo comunismo;(…)resulta tarefa imediata dos partidos comunistas: estender a influência do Partido e do comunismo às vastas camadas da população feminina de seu país, através de um órgão especial do Partido e de métodos particulares, permitindo abordar mais facilmente as mulheres para livrá-las das concepções burguesas e da ação dos partidos coalizacionistas, para fazer delas verdadeiras combatentes da libertação total da mulher (…) Impondo aos Partidos Comunistas a tarefa imediata de reforçar o trabalho do Partido no proletariado feminino, o 3º Congresso da Internacional Comunista mostra, ao mesmo tempo, às operárias do mundo inteiro, que sua libertação da injustiça secular, da escravidão e da desigualdade, só se realizará com a vitória do comunismo.(…) Chegaremos ao comunismo pela união na luta de todos os explorados e não pela união das forças femininas de classes opostas” (grifo nosso)[3]

Não é possível acabar com a opressão secular das mulheres sob o capitalismo e, portanto, sem a revolução socialista e o sujeito social da revolução é o proletariado, especialmente a classe operária.

Não compartilhamos das visões de certos setores feministas que, mesmo colocando-se no campo da revolução socialista em palavras, afirmam que o proletariado deixou de ser o sujeito social da revolução e teria sido substituído por novos sujeitos.

Esta é uma das controvérsias mais importantes no movimento feminista: sobre quem é o sujeito social da emancipação das mulheres. Em que pese que nestas discussões quase sempre se omita um fato gigantesco: a tendência à feminização da força de trabalho, que faz das mulheres praticamente metade da força de trabalho e um dos setores mais explorados e oprimidos da classe operária. As mulheres de conjunto formam um grupo policlassista. Já a classe operária é uma categoria intergenérica. Para as marxistas, a libertação das mulheres não pode acontecer sem a revolução socialista e o sujeito social de tal revolução é o proletariado (o que inclui mulheres e homens da classe trabalhadora). Porém, nesta luta específica, as mulheres operárias encabeçarão o combate pela sua própria emancipação e por conseguir que os homens da sua própria classe incorporem a luta contra a opressão no programa e na política revolucionária, nas suas fileiras, e como um dos aspectos que compõe a luta de classes mais ampla contra o capitalismo.

As feministas de muitos matizes afirmam, não sem razão, que na “esquerda” vinga a idéia de que qualquer objeção sobre a opressão das mulheres dividiria a unidade necessária das fileiras operárias para enfrentar a burguesia. Lamentavelmente, esse foi o legado que o estalinismo e a social democracia deixaram. Em nome da unidade da classe, jogavam a luta contra a opressão da mulher para debaixo do tapete, para as calendas gregas ou, até pior, defendiam a opressão “em favor” da “não divisão da classe”, alegando, nos países capitalistas, ser esta tarefa de uma etapa futura e nos estados operários burocratizados defendiam a opressão e a família como baluartes na “construção do socialismo num só país”.

Nós, parafraseando Marx, afirmamos que não pode liberar-se quem oprime outros. Não há possibilidade de que a classe que é o sujeito social da revolução pelo papel que ocupa na produção, possa tornar-se direção revolucionária do conjunto do povo oprimido, sem levar em consideração que existe a opressão também no interior da classe, que milhões de mulheres trabalhadoras e pobres sofrem a humilhação, a opressão, assédio e desmandos dos membros masculinos da sua própria classe.

É por isto, que o programa leninista/trotskista diz o oposto do estalinismo. Nós revolucionários dizemos que, se a unidade da classe operária é imprescindível, então é imperioso lutar contra a opressão e os preconceitos contra os negros, os imigrantes, os jovens, contra as barreiras entre efetivos e contratados e, neste mesmo sentido lutar sem quartel contra a opressão das mulheres. Elas devem deixar de ser “as proletárias do proletário”.

Então, voltando à Terceira Internacional e à Lênin: “a ditadura do proletariado deve ordenar a linha de conduta e de ação dos dois sexos”. No que concerne a liberação das mulheres, as mulheres não devem unir-se às mulheres burguesas de forma permanente em nenhuma hipótese. No máximo podem fazer unidade de ação em torno de lutas democráticas (golpeando juntas, mas marchando separadas, como dizia Clara Zetkin, quando da luta pelo direito de voto feminino). As mulheres devem unir-se ao proletariado e lutarem ao lado dos seus companheiros de classe pelo socialismo, levantando nesta luta suas bandeiras específicas. Agora, aos homens da classe trabalhadora também cabe responsabilidade pela unidade da classe, portanto, cabe defender as bandeiras de emancipação e liberação das mulheres junto com as mulheres trabalhadoras, porque o machismo divide a classe.

O Partido, então, no interesse da revolução socialista e da unidade da classe operária, precisa incorporar na sua política cotidiana o combate contra o machismo, inclusive no interior da própria classe.

A luta contra a opressão é parte indissociável do programa revolucionário, operário e socialista

1) Opressão e exploração
1. Como dizia Rosa de Luxemburgo, o capitalismo é um sistema de discriminação na exploração. E, como sempre, agregamos nós, é um sistema que se aproveita de forma sistemática de todo tipo de discriminação para explorar mais e melhor. O imperialismo e a burguesia mantêm seu sistema de exploração em última instância pelas armas, mas seu instrumento preferido no dia a dia é a ideologia. É necessário que os explorados e oprimidos não tenham consciência de sua exploração e opressão e, ao contrário, considerem sua condição natural. Um dos principais elementos da ideologia dominante é o preconceito, porque é eficaz para dividir a classe, para desviar sua revolta do alvo correto, a classe dominante, e fazê-la recair sobre setores da própria classe. Os capitalistas têm e usam a seu favor as religiões, as diversas culturas, o racismo, a homofobia e o machismo para nos dividir e nos desorganizar.

2. Praticamente todas as opressões se originam antes do capitalismo. De todas elas, no entanto, a da mulher é a mais antiga e arraigada. Marx e Engels já no manifesto comunista demonstraram que a opressão da mulher surge junto com a exploração e as classes sociais. Indicaram que a história da submissão da mulher começa quando ela é afastada da produção social, descobrindo, portanto, o nexo entre opressão e exploração, desnaturalizando assim a opressão, contrapondo-se às visões religiosas ou biologistas que debitavam a inferioridade da mulher à sua natureza.

“(…) o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a do sexo feminino pelo sexo masculino. (…)”.[4]

3. O marxismo, portanto, dá uma contribuição inestimável à compreensão da opressão da mulher, fundamental à luta pela sua libertação. É importante notar também, que ao ver que o surgimento da opressão da mulher coincide historicamente com o surgimento da exploração e, portanto, entender que sem por fim à exploração não se resolve essa opressão, nem Engels e muito menos Lênin, terão uma visão economicista e mecânica desta questão, como fazem certos setores, que ou remetem a luta pela libertação das mulheres para um futuro longínquo, depois que a exploração terminar, ou, afirmam ser secundário lutar pela emancipação, reduzindo à luta das mulheres à luta contra a exploração, ou, ainda, afirmando que automaticamente com a revolução socialista e a tomada do poder acaba-se a opressão. Engels não achava isso:

“(…) segundo a concepção materialista da história, o fator que em última instância determina a história é a produção e reprodução da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela – as formas políticas da luta de classes e seus resultados, as constituições que, uma vez vencida uma batalha, a classe triunfante redige etc, as formas jurídicas e inclusive os reflexos de todas essas lutas reais no cérebro dos que nelas participam, as teorias políticas, jurídicas, filosóficas, as idéias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva a converter-se num sistema de dogmas – também exercem sua influência sobre o curso das lutas históricas e, em muitos casos, determinam sua forma, como fator predominante” . [5]

4. A contribuição de Lênin deixou mais clara a estratégia da luta pela emancipação da mulher como componente da revolução proletária. Lênin, inclusive, ajudou pessoalmente na elaboração de muitas leis que vieram a favorecer a mulher, após a revolução de outubro na URSS.

As teses devem ressaltar com rigor que a verdadeira emancipação da mulher somente é possível através do comunismo. É preciso esclarecer profundamente o nexo indissolúvel entre a situação da mulher como pessoa e membro da sociedade e a propriedade privada dos meios de produção. Assim, delimitaremos com toda precisão, os campos entre nós e o movimento burguês pela “emancipação da mulher”. Isto sustentará também as bases para examinar o problema feminino como parte do problema social, operário, e, conseqüentemente, permitirá vinculá-lo firmemente à luta proletária de classe e com a revolução. O movimento comunista feminino deve ser um movimento de massas, não só um movimento de proletários, mas de todos os explorados e oprimidos, de todas as vitimas do capitalismo. Nisto consiste a importância do movimento feminino para a luta de classes do proletariado e para sua missão histórica criadora: a organização da sociedade comunista. Podemos nos orgulhar com razão pelo fato de que a flor e a nata das mulheres revolucionárias militam em nosso partido, na internacional comunista. Porém, isto não tem ainda uma importância decisiva. Devemos atrair milhões de trabalhadoras da cidade e do campo para participarem de nossa luta e, em particular, da obra de reestruturação comunista da sociedade. Sem as mulheres não pode haver um verdadeiro movimento de massas.” [6]

5. Esta tradição leninista, profundamente “feminista”, no sentido da compreensão da importância da luta das mulheres por sua emancipação, foi rompida pelo stalinismo e nunca foi realmente defendida pela social democracia. De modo que, também em relação à questão da mulher, coube ao trotskismo manter a defesa verdadeiramente a emancipação e o movimento socialista e revolucionário das mulheres trabalhadoras. O marxismo revolucionário precisou e precisa levar a cabo também na questão da mulher, uma luta contra o reformismo clássico, o estalinismo e o obreirismo economicista por um lado, contra o limitado e elitista feminismo burguês por outro e contra os feminismos sexistas de um ou outro matiz. Nós não afirmamos que a emancipação das mulheres estará garantida automaticamente com a revolução socialista ou com a tomada do poder. Mas, afirmamos que o contrário é verdadeiro, ou seja, sem a revolução socialista garantimos que não haverá o fim da opressão das mulheres. Por isso, contrapor a necessidade de uma mudança cultural completa como fazem as feministas radicais (que os homens e mulheres mudem a si mesmos completamente antes de tudo) à revolução socialista ou à necessidade de fazer a revolução, é uma utopia reacionária. É impossível a emancipação dos oprimidos sob o capitalismo. Mas, dessa compreensão, não concluímos que haja etapas obrigatórias na luta pela emancipação das mulheres. Enquanto lutamos para tomar o poder, é dever irrenunciável nosso impulsionar, colocar-se na vanguarda e participar as lutas das mulheres pelos direitos democráticos mais elementares, por melhores condições de vida, e por qualquer reforma dentro ainda do sistema capitalista, associando-os à nossa luta contra o capitalismo e pela tomada do poder.

6. Mais uma vez, Lênin formula com clareza a importância de incorporarmos não apenas no nosso programa, mas na nossa política as reivindicações das mulheres no dia a dia. “Por isso é totalmente justo que apresentemos reivindicações em favor das mulheres. Isso não é um programa mínimo, um programa de reformas no espírito social-democrata, no espírito da II internacional. Isto não é o reconhecimento de que acreditamos na eternidade ou ao menos em uma existência prolongada da burguesia e seu estado. Não é tampouco uma tentativa de apaziguar as massas femininas com reformas e desviá-las da luta revolucionária. Isto nada tem em comum com as fraudes reformistas. Nossas reivindicações se desprendem praticamente da tremenda miséria e das vergonhosas humilhações que a mulher sofre, débil e desamparada, no regime burguês. Com isto mostramos que conhecemos estas necessidades, que compreendemos igualmente a opressão da mulher. Que compreendemos a situação privilegiada do homem e a odiamos – e queremos eliminar tudo o que oprime e atormenta a operária, a mulher do homem simples e, inclusive, em muitos casos, a mulher da classe acomodada. Os direitos e as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa para a mulher são uma prova de que compreendemos a situação e interesses da mulher e de que na ditadura do proletariado as levamos em conta.” (grifo nosso)[7]

7. Nós nos mantivemos fiéis à tradição revolucionária e socialista contra os feminismos sexistas, que de um modo ou de outro colocam-se nos marcos da democracia burguesa e da utopia reacionária de colocar fim à opressão sob o capitalismo. Também não é um mérito menor, que contra tudo e todos tenhamos levantado todos esses anos a independência de classe, o corte de classe na luta das mulheres. Somos marxistas e afirmamos que não é possível conquistar a liberação das mulheres e nem por fim a nenhuma das demais opressões sob o capitalismo. Lutamos pela revolução socialista e, por isso, compreendemos e defendemos que a emancipação das mulheres não será uma tarefa apenas das mulheres e menos ainda produto de uma aliança permanente entre mulheres burguesas e proletárias. Para nós esta questão não apenas é um princípio, mas é a única eficaz para levar até o final o combate pelo fim de toda opressão. Este nosso posicionamento é um patrimônio da LIT e do PSTU e das secretarias de opressões que temos (mulheres/negros/LGBTs).

8. Também é um grande mérito das nossas secretarias de opressões, localizarem com clareza no nosso programa a questão da mulher trabalhadora negra e da lésbica. Ambas duplamente oprimidas e, no caso da mulher negra, mais ainda superexplorada. Como diz documento da SNN: “A combinação entre racismo e machismo vitima cotidianamente a mulher negra. Diante disso, o PSTU defende além do programa geral elaborado para as mulheres, uma política específica para as mulheres negras (…) O PSTU condena a utilização do estereótipo da mulher negra como ‘produto de consumo e exportação’, amplamente divulgado pelos meios de comunicação e que, em última instância, incentiva os freqüentes ataques sexuais sofridos pelas mulheres negras, bem como (devido às pressões sócio-econômicas) são responsáveis por um enorme número de mulheres prostituídas na comunidade negra. (…) condenamos a esterilização generalizada, que alimentada pela política do embranquecimento, atinge particularmente as negras. (…) A mulher negra é base da pirâmide social, recebendo média salarial de 1,7 salário mínimo e constitui um grande exército de reserva da força de trabalho do capitalismo, sendo as primeiras a serem demitidas e alvo número um da violência social (sendo usada ainda como produto/mercadoria barata – vide a exploração da ‘mulata’, o assédio sexual e os estupros), fruto da discriminação racial e do mito da democracia racial na racista sociedade brasileira”.[8]

9.Mas se temos tido um mérito inegável de ter um corte de classe categórico no nosso programa de mulheres e se está inserido no programa geral do Partido a luta pela emancipação/libertação das mulheres, precisamos reconhecer que não temos tido nem uma atuação cotidiana e especial sobre as mulheres no movimento como deveríamos e também não tem se expressado como deveria na nossa política e atuação cotidiana a defesa das opressões. Ainda não há compreensão em toda a organização que a defesa cotidiana da emancipação das mulheres é parte indissociável do nosso programa e do nosso projeto de sociedade e precisa ser parte da nossa política. De maneira que todos concordam que as mulheres devem lutar contra a exploração, não aliar-se com as mulheres burguesas de forma permanente e defender o socialismo, mas nem todos compreendem a importância de se travar junto com isso um combate permanente e cotidiano contra a opressão e o machismo no interior da nossa classe. Em dar a real importância que tem a questão da opressão das mulheres e a defesa da sua libertação. Não vêem que o machismo divide a classe. Pelo contrário, veem na luta contra o machismo algo secundário e às vezes, pior que isso, fator de divisão.

10. Internamente, além de estar se manifestando vários episódios de machismo, não está ocorrendo como deveria a aplicação do ½ ponto para a promoção de quadros mulheres, conforme estabelece nossos estatutos. Muitas vezes, o ½ ponto tem sido utilizado formalmente, de um modo que se torna inaplicável. Pois, é “aplicado” quando o balanço da companheira empata com o do companheiro, ou seja, não é aplicado em todo o balanço. Ora, se uma companheira empata com um companheiro ela tem um balanço superior. Pois se alguém enfrenta uma corrida de 100 metros com 10 obstáculos e chega junto com alguém que correu os mesmos 100 metros sem obstáculos, o primeiro corre mais. O balanço todo e não apenas o resultado do balanço deve ser levado em consideração.

11. O nosso programa, essencialmente correto, precisa se traduzir em palavras de ordem que tornem eficazes nossa visão de classe. As companheiras da Secretaria de mulheres têm sido heróicas, mantendo de pé o nosso programa, fazendo esse debate essencial sobre gênero e exigindo da direção, do Partido, que tenhamos trabalho nas regionais, na base dos sindicatos, etc. A DN falhou até o momento, no sentido de fazer aquilo que Clara Zetkin, Lênin, Alexandra Kollontai diziam ser necessário, valorizar um trabalho especial sobre as mulheres. A inexistência de um trabalho de base nos leva ao propagandismo e o propagandismo nos afasta de um trabalho de base sobre as mulheres. De novo Lênin: “Porém, as amplas massas femininas, trabalhadoras e populares, não sentirão anseio irresistível de lutar ao nosso lado pelo poder do estado se sempre proclamamos, exigindo só esta reivindicação, ainda que seja com as trombetas de Jericó. Não! Não! Também na consciência das massas femininas devemos vincular politicamente nosso apelo aos sofrimentos, às necessidades e aos desejos das trabalhadoras.”[9]

12. Então, a visão de que as bandeiras contra a opressão e a luta contra as mesmas é secundária não é uma visão leninista/trotskista. Mais uma vez, Lênin é quem localiza com clareza que a luta contra as opressões faz parte do nosso programa e da nossa luta cotidiana: “(…) Parabellum (…) declara ilusória a luta pelo inexistente direito à autodeterminação e opõe-lhe a luta revolucionária de massas do proletariado contra o capitalismo (…) Acontece que Parabellum, em nome da revolução socialista, rejeita com desdém um programa conseqüentemente revolucionário no domínio democrático.Isto é errado. O proletariado não pode vencer senão através da democracia, isto é, realizando integralmente a democracia e ligando a cada passo da sua luta reivindicações democráticas formuladas da maneira mais decidida. É absurdo opor a revolução socialista e a luta revolucionária contra o capitalismo a uma das questões da democracia, neste caso a questão nacional. Devemos combinar a luta revolucionária contra o capitalismo a um programa e a uma tática revolucionárias em relação a todas as reivindicações democráticas: república, milícia, eleição dos funcionários pelo povo, igualdade de direitos das mulheres, auto determinação das nações, etc (…)” [10]

2) Uma breve história da luta contra a opressão da mulher e suas ideologias
1. Se a opressão é muito anterior ao capitalismo, podemos dizer que tanto a questão do socialismo, como do “feminismo”[11] nascem com o capitalismo. Nascem junto com o nascimento do proletariado e com a destruição da economia pré capitalista baseada na família

2. No final do século XIX e início do século XX, na Europa, o movimento de mulheres marxista e revolucionário foi ganhando hegemonia e foi se impondo contra o feminismo liberal burguês e abrindo caminho contra, inclusive, parte dirigente expressiva da social democracia. Clara Zetkin, foi uma figura de proa aí e a partir da ruptura da social democracia com o advento da Iª Guerra, terá em Lênin seu principal ponto de apoio na luta contra os dirigentes do Partido alemão e da IIª Internacional.

3. O feminismo liberal burguês nunca se questionou muito sobre a origem da opressão das mulheres. Limitou-se sempre a defender a igualdade formal, jurídica e política, das mulheres desde os tempos em que a burguesia cumpriu um papel revolucionário até hoje. As mulheres do feminismo liberal defenderam uma carta dos direitos da mulher, depois, as sufragistas lutaram pelo voto feminino. O movimento de mulheres trabalhadoras, dirigido pelas marxistas não se organizou em comum com as feministas burguesas. Mesmo quando golpeou junto por questões democráticas, sempre teve uma unidade de ação muito episódica. Isso tanto pela compreensão da ligação da emancipação das mulheres com o socialismo e, portanto, com a ditadura do proletariado, mas também porque as diferenças com as mulheres burguesas não eram e não são apenas estratégicas ou futuras, mas presentes. Pois, a opressão sobre as mulheres trabalhadoras não é igual à da mulher burguesa, na medida em que sobre a mulher trabalhadora a opressão resulta em superexploração e em dupla jornada de trabalho. A mulher burguesa não é explorada, menos ainda superexplorada a partir da opressão. No início do século, além de tudo, mesmo a bandeira democrática do direito ao voto, implicou também em diferenças, porque uma parte das burguesas defendia o voto feminino, mas mantinha o voto censitário e não universal, deixava a classe operária de fora. Sem dizer que as feministas burguesas, na figura da sua maior organização, se contrapuseram à defesa de direitos das trabalhadoras, como a “licença maternidade” e outros, conquistados em grande medida (não apenas) pela luta das mulheres trabalhadoras, dirigidas pelas marxistas.

4. Por outra parte, se a obra marxista foi fundamental na compreensão da opressão da mulher e na sua desnaturalização e, portanto, também na defesa de sua emancipação, não quer dizer que a defesa da emancipação da mulher na esquerda tenha sido algo natural. Pelo contrário, foi uma luta. Na Iª Internacional os Proudhonianos (socialistas utópicos) e depois Lassalle (pré-marxista) do Partido Operário Alemão eram contra a organização das mulheres como trabalhadoras, porque eram contrários que elas se integrassem na produção. Bernstein, dirigente do Partido Social Democrata Alemão e da IIª Internacional (que depois converteu-se no primeiro grande revisionista e reformista) sendo favorável à igualdade legal das mulheres era totalmente contrário á organização militante das mulheres trabalhadoras encabeçada por Clara Zetkin. Mesmo Bebel, o principal dirigente da social democracia alemã, que escreveu um livro, chamado “A mulher e o socialismo” e que defendia a emancipação das mulheres, usou de todos epítetos machistas contra Rosa de Luxemburgo, quando da ruptura da social democracia. Até 1892 as mulheres não tinham direito a serem responsáveis pela propaganda do partido, só os homens podiam sê-lo. Foi considerada uma grande vitória trocar o termo homem por pessoas, quanto a esta responsabilidade. Só em 1905 se conseguiu que os estatutos do SPD estabelecessem que: “A propaganda sistemática no proletariado feminino é realizada por delegadas mulheres, eleitas, se possível, em todas as localidades, de acordo com as instâncias do partido”.[12]

5. Se Lênin foi um grande aliado de Clara Zetkin (que, junto com Rosa de Luxemburgo, rompeu com a social democracia em 1914 e aderiu às fileiras da esquerda de Zimmervald e posteriormente à IIIª Internacional) e de Alexandra Kollontai[13] e depois, na revolução de outubro, sustentáculo fundamental em apoio à luta pela emancipação das mulheres, e à formulação da Constituição mais “feminista” de toda história da humanidade, a contrarrevolução stalinista fez retroceder para aquém da democracia burguesa, tudo que a revolução e os revolucionários tinham conquistado (como veremos mais abaixo). E, no entanto, os bolcheviques tinham absoluta clareza de que a igualdade perante a lei não era ainda a igualdade perante a vida. A contrarrevolução stalinista a um só tempo destruiu parte importante das conquistas democráticas das mulheres, fez do atraso virtude e o glorificou.

6. Mesmo na IIIª Internacional, que em razão dos esforços de Lênin garantiu muito mais espaço do que na IIª para montar uma Comissão feminina e realizar Conferências de Mulheres, Clara Zetkin encontrou uma incompreensão enorme. O trabalho especial sobre as mulheres era visto como secundário e com desconfianças. O apoio de Lênin ajudava, mas com a morte de Lênin, Clara e as mulheres sofreram várias derrotas na Executiva da Internacional. Com o apoio de Lênin, Clara queria realizar um Congresso Internacional de Mulheres mais amplo, do qual pudessem participar também mulheres social democratas, sem partido e até mesmo organizações ainda mais atrasadas. Mas este não ocorreu devido a oposição do Partido alemão. Depois da morte de Lênin, já em 1926, a maioria da Executiva da Internacional, votará contra a constituição de organizações de mulheres proletárias proposta por Clara. Contra esta orientação, neste mesmo ano, na quarta Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, Clara faz um apelo às delegadas para que discutam a organização das mulheres comunistas “sem preconceitos e sem medo de desvios oportunistas ou feministas”. É significativo que essa conferência feminina internacional tenha sido a última convocada pela Terceira Internacional.

7. Nos anos 70, na esteira do maio de 68 francês, da guerra e posterior derrota dos EUA no Vietnam, surgiu um grande ascenso nos EUA, o que convencionou-se chamar da segunda onda feminista. Além do ressurgimento do feminismo liberal burguês, surge o feminismo radical e também as autonomistas.

8. O feminismo radical compreende diferentes postulados teóricos e também políticos. A maioria das teóricas do feminismo radical vieram da esquerda marxista, polemizando com a “esquerda ortodoxa”, incluindo aí o stalinismo. As feministas radicais, ao contrário das liberais, enfatizavam a existência do patriarcado (a dominação masculina) em todas as sociedades existentes. Desde este ponto de vista, pareciam compartilhar com as socialistas de que sob o capitalismo é impossível a liberação humana, porém se mostravam completamente céticas sobre a possibilidade da revolução e do socialismo garantir a emancipação das mulheres e de todos os oprimidos.    O feminismo radical vai defender que não há mudança social sem uma revolução cultural que o preceda. Daí enfatizará a necessidade da construção de organizações de mulheres, cujo objetivo central seja a autoconscientização, num movimento de contracultura que negue as práticas naturalizadas na vida cotidiana e “naturalize” outras. Há diferentes setores no feminismo radical, desde aqueles que se enxergam como parte e aliado de outros setores sociais e socialistas até os que absolutizam a recuperação de uma cultura feminina com valores próprios, que recrie uma outra cultura, oposta à dominante. O feminismo radical, mais ainda nos anos 80, propõe redefinir as relações sociais a partir do ponto de vista feminista. Elas acreditam ser necessário redefinir a realidade a partir do olhar feminista.

9. Nesse mesmo contexto, “contrapondo-se” ao stalinismo, os PCs da Europa vivem um processo de social-democratização, que ficou denominado como eurocomunismo. O Secretariado Unificado (SU) da IV Internacional, que tinha passado os anos 60 capitulando à guerrilha e ao ultra-esquerdismo, começa a capitular ao eurocomunismo, considerando-o um fenômeno transitório, mas de caráter indefinido, alentando a ilusão de que os PCs europeus poderiam tornar-se revolucionários e retornarem ao leninismo. Mandel então formula o documento “A democracia Socialista e a ditadura do proletariado”, onde, polemizando com os eurocomunistas que igualavam a ditadura do proletariado ao regime ditatorial, passa a argumentar que a verdadeira ditadura do proletariado pratica liberdades ilimitadas. Enfatiza a chegada ao poder dos trabalhadores pela via do “transcrescimento da democracia”, dando importância à radicalização da democracia burguesa, minimizando, ou quase, abandonando a necessidade da violência revolucionária para tomar e manter o poder dos trabalhadores. Contra tal documento Moreno escreverá “A Ditadura Revolucionária do Proletariado”, que será defendida pela Fração Bolchevique (antecessora da LIT). No movimento feminista, o SU vai adotar como seu o documento de Mary Alice Watters, do SWP dos EUA, o qual defende que as bandeiras feministas são transicionais (revolucionárias) em si (e não democráticas) e que todas as mulheres, burguesas e operárias, poderiam unir-se numa “irmandade de mulheres”, num movimento policlassista, pois este em si teria uma dinâmica anticapitalista. Este movimento policlassista que seria “anticapitalista” na visão do SU atuaria ao lado dos demais movimentos, inclusive, o dos trabalhadores em direção ao socialismo. Nessa visão, o movimento operário deixava de ter centralidade, passava a ser mais um movimento ao lado dos movimentos de oprimidos que uniam “burguesas e proletárias”. O SU, então, capitulará e se tornará mais uma ala e apêndice do feminismo radical. A Fração Bolchevique denunciará este documento como frente-populista e sexista, afirmando nossa visão de classe na luta pela emancipação das mulheres.

10. Ao lado dessa visão radical e não tão diferente dela, surgirá o autonomismo. As autonomistas vão dizer que a revolução não é necessária porque é possível viver o comunismo ou o socialismo aqui e agora, basta colocá-lo em prática. Numa visão não muito diferente da de Toni Negri sobre o imperialismo, muitas delas enfatizam que tudo passa pela transformação pessoal, que podemos, á margem do sistema, criar a nossa existência, libertas dos preconceitos patriarcais e também da exploração do trabalho.

11. As feministas pós-modernas não deixam de ter laços e nexos teóricos com essas idéias, mas vão ainda mais além. Nascem na academia e no refluxo, e vão dizer que é preciso ir além das feministas radicais. Para elas é importante contestar os conceitos “soberanos”, rejeitar qualquer noção de totalidade. Enquanto as feministas radicais dirão que a história foi escrita sob um viés e um olhar masculino e será preciso deitar sobre ela um outro olhar, as pós modernas enfatizaram que é necessário desconstruir a visão “moderna”, com seus sujeitos e noções de totalidade e, de preferência, não afirmar nenhuma alternativa totalizante. É necessário relativizar tudo a tal ponto que elimine qualquer noção de totalidade, e questionam também qualquer noção de sujeito. Deve-se criar micro-poderes à margem do sistema, buscando dar poder á mulher nesses espaços localizados, dando “empoderamento” á mulher em pequenos espaços. Conformavam até anos atrás uma teoria da impotência e do imobilismo. Tais visões porém foram avançando para uma fragmentação e subjetividade maior. Hoje, as visões pós-modernas afirmam que não há sujeitos, pois estes também embutem uma visão de totalidade. Por outro lado, alguns movimentos enfatizam de maneira quase absoluta a repressão sexual como a origem da opressão e reivindicam centralmente a liberação sexual.[14]

12. O que acaba por unir as visões radical, autonomista e pós-moderna é de um lado o policlassismo e de outro a defesa de um “horizonte” ou falta de horizonte, que, de fato, não vai além da democracia burguesa, seja usando que adjetivo for: democracia radical, pluralista, mais democrática. De fato, renegam a revolução socialista, a ditadura do proletariado e o sujeito social da revolução. São teorias que dizem que “um outro mundo é possível”, sem revolução, sem a destruição do capitalismo e sem a tomada do poder pelo proletariado.

13. A maioria das feministas atualmente, inclusive as mais radicais, não questionam, portanto, a democracia burguesa, porque supõem que toda crítica à democracia conduz à via do totalitarismo e usam o que foi o stalinismo para jogar no mesmo saco todo o marxismo. Enquanto isso, a maioria de tais organizações são cooptadas via ONGs, com verbas governamentais ou das instituições imperialistas e mesmo de grandes oligopólios, para uma ação anti-classista, de fragmentação do movimento e de colaboração com a burguesia e diversos governos de colaboração de classes, como o de Lula no Brasil.

3) Um capítulo importante: Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Rosa de Luxemburgo, Lênin, Trotsky e a tradição marxista e revolucionária frente a todas as opressões é oposta ao Stalinismo
1. Se na esteira de uma situação reacionária avançou o machismo na sociedade e tem se infiltrado além da conta até no nosso partido, a ponto de que muitas vezes se perde a noção da importância da defesa da emancipação das mulheres, como parte do nosso programa, política e atitudes, também é fato que as novas gerações não sabem o que foi o stalinismo e muitas vezes reproduzem uma ideologia, que além de machista não deixa de ser neostalinista. Pois, chegam a afirmar que a opressão pode ser usada em prol da revolução e da construção do socialismo. E esse tipo de idéia, no entanto, é frontalmente contrária ao programa e ideologia dos revolucionários.

2. Talvez a demonstração mais contundente no que toca ao posicionamento dos revolucionários frente às opressões em geral, tenha sido a revolução de outubro, seja em relação às nacionalidades, ao racismo, ao feminismo, até frente aos homossexuais. Num país atrasado como a URSS, que tinha uma maioria da população no campo, carregando traços de servidão e de feudalismo, há quase 100 anos atrás, no início do século XX, os bolcheviques tinham um posicionamento revolucionário e corajoso, que não apenas não capitulava ao atraso e ao senso comum, como era muito mais avançado do que o posicionamento que muitos militantes de esquerda possuem hoje, em pleno século XXI.

3. A constituição soviética proclamou a completa igualdade jurídica das mulheres e dos homens, ultrapassando neste terreno a legislação de todo e qualquer país capitalista, mesmo os mais avançados. As mulheres conquistaram o direito ao aborto, ao divórcio, ao voto pleno, á empunhar armas ao lado dos homens na defesa do estado operário, ao salário igual para trabalho igual, e um largo etc. Sobre a homossexualidade, que na legislação européia era qualificado de ofensa á moral pública, o Estado se posicionava da seguinte forma: “declara a absoluta não interferência do Estado e da Sociedade nos assuntos sexuais, sempre que não lese a pessoa alguma e não prejudique interesses de ninguém (…), a legislação soviética as considera exatamente igual que qualquer outra forma da chamada relação ’natural’. Qualquer forma de relacionamento sexual é um assunto privado”.

4. Lênin e Trotsky tinham plena consciência, entretanto, que a igualdade jurídica e política não bastava e não era a mesma coisa que a igualdade perante a vida. Sabiam que havia um largo caminho a percorrer, encaravam a tomada do poder como o ato inicial da revolução e do socialismo e não o seu final. As leis foram concebidas como de transição, num estado também de transição. Eles, entretanto, ao outorgar esses direitos democráticos consideravam que a emancipação das mulheres era uma tarefa central da revolução, que elas só poderiam se emancipar, através da incorporação na produção social (e não pela revalorização do trabalho doméstico que o capitalismo menosprezava e ao mesmo tempo utilizava) e que a eliminação do trabalho doméstico era fundamental para incorporar as mulheres na vida pública.

5. Daí a preocupação também com os refeitórios, creches, escolas e demais serviços públicos e que estes tivessem qualidade para ganhar as mulheres para saírem da esfera da família e liberar-se o máximo do trabalho doméstico. Além disso, havia uma tremenda preocupação com a cultura, porque o atraso era monumental. Inclusive, muitas mulheres olhavam para trás, para a volta ao lar.

6. A contrarrevolução estalinista se dará em todas estas dimensões. Em relação às nacionalidades, a URSS se transformará num “cárcere dos povos”. Em relação às mulheres, serão retirados um a um os direitos conquistados na revolução. Stalin instituiu medalhas às mulheres que tivessem mais filhos, perseguiu e tratou como delinquente as mulheres que, vivendo na miséria, foram condenadas à prostituição, a família passou a ser estimulada, etc. Em 1936, Stalin declarava: “O aborto que destrói a vida é inadmissível em nosso país. A mulher soviética tem os mesmos direitos que o homem, mas isso não a exime do grande e nobre dever que lhe atribuiu a natureza: ser mãe, dar a luz”. Logo, suprimiu a seção feminina do PCUS. Em 1934, não respeitar a família se converteu numa conduta burguesa ou esquerdista para a burocracia. Em 1944 criou a ordem “glória maternal” para a mulher que tivesse entre sete e nove filhos e “Mãe Heróica” para a que tivesse mais de 10. O divórcio tornou-se um trâmite custoso e difícil. Em relação aos homossexuais a constituição passou a dizer o seguinte “Homossexualidade é uma perversão sexual consistente em uma atração anti-natural entre pessoas do mesmo sexo”. Tudo isto, junto com os processos de Moscou, e os odiosos privilégios da burocracia era feito em nome do socialismo. Para Stalin, o socialismo estava quase consumado e devia ser construído num só país.

5. Lênin e Trotsky nunca defenderam nada disso. Para eles a tomada do poder era apenas o início da revolução, que precisava ser mundial e internamente precisava ter continuidade, numa mudança cotidiana da vida e também cultura, dos costumes, como enfatizava Trotsky na teoria da revolução permanente.

6. O stalinismo, do mesmo modo que pavimentou a restauração capitalista nos ex-estados operários, manchou o nome do socialismo e ajudou a abrir caminho para as ideologias burguesas e reformistas, para o autonomismo, os nacionalismos reacionários e até para que a ideologia pós modernista de “ fim de todas as narrativas”, que não é tão diferente do “fim da história”.

7. Mas, muito antes das feministas radicais, foi Trotsky, quem denunciou que a burocracia stalinista era contrária à emancipação das mulheres, no seu livro A Revolução Traída. A teoria e o programa trotskistas, que são continuidade do bolchevismo e do leninismo, incorporam com peso a luta contra as opressões. Também neste terreno se aplica a teoria da revolução permanente, o programa de transição e sua metodologia, ou seja, que a luta contra toda a opressão deve estar inserida na política revolucionária. A luta contra as opressões se ordena pela Ditadura do Proletariado, mas precisa ser incorporada no cotidiano, antes, durante e depois da tomada do poder. Nós somos revolucionários. O Trotskismo e o Leninismo não são continuidade do stalinismo, como querem fazer crer as ideologias burguesas. Socialismo com machismo, homofobia, racismo e opressão nacional, não é socialismo…é stalinismo!

4) Machismo e “feminismo” sob o neoliberalismo: aumenta a opressão e a exploração, retrocede completamente o classismo e avançam as teorias de gênero e as ideologias da pós modernidade
1. O capitalismo tirou a mulher do âmbito privado e a tem colocado em grande escala no mercado de trabalho. E tem feito uma grande propaganda de que a mulher já está emancipada ou pode caminhar aceleradamente para a emancipação. Nada mais longe da verdade. Pois o capitalismo, ao mesmo tempo que empurra a mulher para a produção e hoje ela já se constitui na maioria da força de trabalho no mundo, o faz de forma precarizada, sem direitos, pagando salários inferiores, utilizando-a como parte de seu exército industrial de reserva, pressionando para o rebaixamento do conjunto dos salários e retirada geral de direitos de toda classe. Junto com isso, não dá condições à enorme maioria das mulheres de libertar-se do trabalho doméstico, impondo a dupla jornada. Torna-a mais explorada e mais oprimida. As mulheres são 70% dos pobres existentes no planeta.

2. Como já dizia Trotsky, “o capitalismo tem sido incapaz de desenvolver qualquer uma de suas de suas tendências até o final[15]. O capitalismo ao colocar a mulher em larga escala na produção social vai criar para as mulheres as condições para a possibilidade de uma igualdade entre os sexos jamais alcançada, no entanto, vai impedir que a enorme maioria das mulheres exploradas possam elevar-se à libertação, condenado-as a mais opressão, violência, super-exploração. Do mesmo modo que com a criação do proletariado, o capitalismo cria as bases para a sua destruição, ao incorporar massivamente as mulheres no mercado de trabalho, manter e aprofundar a opressão para superexplorá-la, vai criar também as bases para a possibilidade de sua maior participação nas lutas contra a exploração e por sua emancipação. Abre, portanto, também mais possibilidades de que ela engrosse as filas da revolução e do Partido Revolucionário.

3. O capitalismo, então, longe de emancipar a mulher, usa a opressão para aumentar a exploração. A mulher, além de arcar com a dupla jornada, com salários inferiores, com a opressão do patrão e toda ideologia machista que a inferioriza, também é na maioria das vezes oprimida em casa, pela família, arcando em geral com o trabalho e a violência doméstica.

4. Se a mulher é parte majoritária da força de trabalho e sua porção mais precarizada, oprimida e explorada, sofrendo jornadas extenuantes, ela encontra-se num mundo em que, depois da queda do leste, na rasteira da contra-ofensiva imperialista e reacionária, avançaram as ideologias burguesas, no movimento retrocedeu o classismo e avançaram as ideologias de gênero ou as pós modernistas, que levam ao ceticismo, á impotência, à conciliação de classes, à negação do proletariado como sujeito social da revolução e o surgimento dos “novos sujeitos”, à negação da própria revolução. Ao mesmo tempo, o capitalismo e o reformismo, sabendo o potencial revolucionário da classe e de sua porção feminina, tem uma política para que as mulheres fiquem confinadas nos “micro-espaços”, disputando “políticas públicas” sociais e compensatórias.

5. Os governos de Frente Popular, que se elegeram como expressão de uma nova correlação de forças, com o objetivo de derrotar e desmobilizar a classe e impedir a revolução, vão ter política para as mulheres e demais setores oprimidos, buscando sua cooptação. Tentam aparentar um viés mais populista, criando ilusões em fóruns tripartites e na incorporação de organizações dos oprimidos nas formulações de políticas públicas, que possam melhorar sua condição social e de opressão. Então, formula-se um discurso em que se passa a idéia de preocupação com as demandas mais candentes dos oprimidos, enquanto a opressão e a exploração só crescem. Tome-se o exemplo da violência contra as mulheres, que cresce assustadoramente em todo o mundo, evidenciando um mundo em que o machismo cresce junto com a exploração. No Brasil, não é diferente. O governo para evitar que sua máscara caia e que as mulheres se mobilizem massivamente, cria uma lei punindo os agressores, ao mesmo tempo que com a outra mão retira verbas do combate á violência. Mas a campanha pela mídia é que o governo está preocupado e é aliado. O governo e a burguesia estão tendo política para todos os setores oprimidos.

6. As organizações de mulheres, praticamente todas elas, aderiram ou capitulam ao governo. As “mais à esquerda”, como a DS que dirige a MMM no Brasil, que por sua vez chefia a MMM das Américas, atuam com o discurso do governo em disputa, “anticapitalistas” aliadas do MST no discurso. Mas abrigam sob o guarda chuva da Marcha um sem número de ONGs, que atuam com ações pontuais e institucionais.

7. Apesar disso, a experiência com o governo e com estas organizações avança, na medida em que a realidade de opressão e superexploração não melhora, só se agrava. Em que pese a falta de tempo das mulheres operárias, a reorganização, as lutas, mesmo que ainda atomizadas, têm despertado mais mulheres, sem que, no entanto, as entidades e mesmo a esquerda tenha uma política mais efetiva para incorporá-las. Mas, o fato é que elas têm surgido como vanguarda em muitos processos e têm engrossado todos os fóruns que são chamados para discutir sua condição.

8. Nós, revolucionários, neste momento de reorganização que estamos vivendo, como parte da política de proletarização, temos obrigação de ter uma política especial para as mulheres, especialmente para as operárias, uma política de classe, que combata a opressão e a superexploração e traga-as para massificarem as fileiras da revolução. Como dizia Lênin: “Se as mulheres não estão conosco, os contrarrevolucionários podem fazer que se coloquem contra nós. Devemos ter sempre isso em mente…”[16] A experiência de todos os movimentos de libertação confirma que o êxito da revolução depende do grau em que delas participem as mulheres”.[17]

9. O nosso Partido revolucionário, portanto, precisa colocar-se na vanguarda do combate ao machismo e abrir decididamente espaço e lugar para as mulheres trabalhadoras.


[1] Programa de Transição – Trotsky

[2] (Lênin, recordações, por Clara Zetkin)

[3] Teses para a propaganda entre as Mulheres; 3º Congresso da IIIª Internacional.

[4] A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado – Engels

[5] Engels em 1890, numa carta a Bloch.

[6] Lênin, recordações, por Clara Zetkin

[7] Lênin, recordações, por Clara Zetkin

[8] A luta contra o racismo é uma necessidade urgente para o movimento e uma tarefa fundamental para a construção do PSTU – documento da SNN publicado no BDI 23, do pré-Congresso do PSTU de 2000-2001

[9] Lênin, recordações, por Clara Zetkin

[10] Lênin em “O Proletariado revolucionário e o direito das nações à auto-determinação” Obras escolhidas – vol 2 – pg 273

[11] Usamos o termo feminismo aqui, como uma popularização da questão da emancipação da mulher e não no sentido com que este surgiu, como uma visão de mundo oposta ao marxismo, tendo como centro da sua explicação do mundo e da sociedade a divisão entre os sexos, em lugar da divisão entre as classes sociais.

[12] – Alemanha 1890: A questão feminina e a social democracia – Clara Zetkin

[13] Alexandra Kollontai dirigiu o ministério do bem estar social a URSS revolucionária e enriqueceu a compreensão teórica sobre a questão específica da mulher. Lutou para dar à mulher completa independência legal, igualdade no casamento, direito ao aborto e o princípio do pagamento igual para trabalho igual na sociedade russa. Kollontai também reforçou a idéia de que as relações de discriminação da mulher possuíam uma dimensão ideológica bastante enraizada, que exigiam uma ação específica que fosse além das transformações no modo de produção econômico. Antes, fez a crítica ao problema do amor e da mulher na sociedade burguesa. Em seu livro A Nova Mulher e a Moral sexual destacou as características da mulher moderna que nascia: “A autodisciplina, em vez de um sentimentalismo exagerado; a apreciação da liberdade e da independência em vez da submissão e da falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade e não os esforços estúpidos para se adaptar ao homem amado; a afirmação do direito de gozar os prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da ‘pureza’; e, finalmente, a subordinação das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. Diante de nós temos não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas uma mulher-individualidade”.

[14] No momento em que foi escrito esse documento, as visões pós modernas não tinham conseguido ir muito além da academia. Hoje ganharam espaço fora dos muros das universidades.

[15] Trotsky – o marxismo e nossa época

[16] Lênin, recordações, por Clara Zetkin

[17] Lênin, V.I., 19 de novembro de 1918. Publicado no Pravda de 10 de março de 1925.