A primeira de muitas ocupações

Na raiz da desigualdade social no campo está a concentração de terras rurais nas mãos de poucas famílias ou empresas. Cerca de 3% do total das propriedades rurais do país são latifúndios, ou seja, têm mais de mil hectares, e ocupam 56,7% das terras agriculturáveis – de acordo com o Atlas Fundiário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Para piorar, a reforma agrária se encontra totalmente paralisada sob o governo Lula.

Esse é primeira peça se um ciclo cruel. Expulsos do campo, os trabalhadores camponeses são obrigados a fugir das cidades. A maioria dos acampados relata experiências bastante semelhantes. Nasceram e viveram ligados à terra, como trabalhadores assalariados, mas diante da baixa remuneração e do fato de não terem uma terra para plantar, seguiram para a cidade em busca de uma “vida melhor”, engrossando assim as favelas das periferias.

Ao se deparar com uma situação ainda pior, pois não conseguiam achar trabalho e tampouco manter as condições mínimas de sobrevivência, optaram pela luta. “Eu achava que ocupar a terra era uma coisa errada. Toda a minha vida eu trabalhei em fazenda, criei meus filhos em fazenda e até hoje não consegui nada, o salário não dava pra cuidar da mulher e dos filhos e nem pagar aluguel. Fui pra cidade, pensei em conseguir algo melhor, mas estava enganado. Não arrumei trabalho e vim pra cá junto com os meus companheiros atrás do meu objetivo”, explica Paulo, ex-tratorista de fazenda.

Crianças da ocupação“O aluguel tava muito caro, não tinha como sustentar a família”, disse Manuel Vicente, que trabalhava como pedreiro em Caçapava.

A Conlutas foi fundada no início de maio tendo como um de seus objetivos organizar os trabalhadores da cidade e do campo. A estrutura de funcionamento na nova entidade é distinta da estrutura tradicional do movimento operário popular brasileiro. A Coordenação pretende agrupar em suas fileiras, além dos tradicionais sindicatos, organizações e entidades ligadas a luta pela moradia e pela terra.

Por isso, a ocupação dos sem-terras em Caçapava reveste-se de uma importância fundamental, pois inicia a afirmação desse perfil. Como disse Ramos, “vamos tentar criar um modelo de assentamento na Conlutas. Essa é primeira ocupação da Coordenação, de muitas outras que virão”.