100 anos da Greve Geral de 1917

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No mesmo ano em que os operários da Rússia estavam fazendo a sua revolução, a classe operária brasileira fazia a sua primeira grande demonstração de força no país.

A primeira Greve Geral no Brasil completa 100 anos em julho. A histórica greve começou em São Paulo e foi o primeiro passo da classe trabalhadora na luta pelos seus direitos.

Na época, a burguesia brasileira era formada por diversas oligarquias regionais, sendo que a burguesia paulista era a mais poderosa, que enriquecera com a exportação do café (o Brasil era o maior exportador do produto) e o processo ainda inicial da industrialização. Autoritária e conservadora, a burguesia defendia que o Estado não devia interferir nas relações entre patrões e empregados, o que justificava a ausência total de leis que protegessem o trabalhador.

As jornadas de trabalho eram de dez a 16 horas. Crianças e mulheres eram, muitas vezes, a maioria dentro das fábricas. Não havia salário mínimo, direito à aposentadoria, e as demissões podiam ser feitas a qualquer momento e sem justificativa. O direito a férias e à sindicalização era apenas um sonho distante.

Ao mesmo tempo, a repressão era brutal, e a burguesia tratava qualquer protesto contra a exploração como caso de polícia.

Classe operária: a primeira geração
A classe operária estava concentrada, sobretudo, em São Paulo e Rio de Janeiro. A maioria era formada por imigrantes pobres vindos da Europa, uma vez que a burguesia brasileira fez a opção racista de não integrar a população negra, recém-libertada da escravidão, ao proletariado urbano.

Muitos desses imigrantes, especialmente italianos e espanhóis, traziam alguma experiência política e tradição sindical. A maioria era anarquista e já tinha participado de greves e organizado sindicatos. No Brasil, editaram jornais operários, fundaram clubes, escolas livres, bibliotecas, associações operárias e sindicatos. Também havia uns poucos socialistas. O primeiro congresso operário brasileiro, em 1906, no Rio de Janeiro, fundou a Confederação Operária Brasileira (COB).

Essa primeira geração do proletariado brasileiro era bastante combativa. Entre 1900 e 1920, fez 369 greves, sem contar as greves de 1917-1918. Todas as lutas eram travadas, sobretudo, contra a carestia e a inflação. A Primeira Guerra Mundial (1914-1919) fez com que o preço dos alimentos fosse às alturas. A burguesia brasileira aproveitou para lucrar, e todo alimento produzido aqui era vendido para os países em guerra. O resultado foi a falta de gêneros de consumo, enquanto uma altíssima inflação comia o salário miserável dos trabalhadores. Somava-se, ainda, a lamentável condição da vida urbana. O operariado morava em cortiços e habitações miseráveis, cujos alugueis não paravam de subir.

São Paulo: O estopim da greve de 1927
Greves e agitações operárias explodiram em todo o país em 1917. Entre junho e julho, os jornais da época relatam deflagração de greves no Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Pelotas, Recife, Salvador e Mato Grosso. Todas elas eram ecos da primeira grande Greve Geral realizada em São Paulo no começo de junho.

O operariado de São Paulo era composto, na sua maioria, por estrangeiros, especialmente italianos e seus filhos, a maioria empregada nas fábricas têxteis concentradas nos bairros do Brás, Belenzinho e Mooca. Na fábrica Cotonofício Crespi, onde começou a greve, cerca de 75% dos operários e operárias eram imigrantes italianos. Boa parte dos empresários também tinham origem italiana. Como a Itália estava lutando na guerra, cada trabalhador italiano de fábricas de propriedade de outro italiano era obrigado a doar mensalmente uma parte do salário ao Comitê Italiano Pró-Pátria de São Paulo. Esse dinheiro era enviado para a Itália como contribuição ao esforço bélico. Naturalmente, a maioria dos operários não concordava com isso, pois já ganhavam salários miseráveis, e muitos não viam aquela guerra como sua.

Em 9 de junho, 400 operárias da Crespi entraram em greve pedindo o fim do aumento do horário noturno, ocorrido naqueles meses, o aumento de 15 a 20% no salário e a abolição da contribuição para o Comitê Italiano Pró-Pátria.

No dia 29 de junho, todos os 1.500 operários da fábrica cruzaram os braços. No dia seguinte, operários de outras empresas paralisaram suas atividades. Houve uma insurreição nos bairros operários. Em 7 de julho, foram registrados saques a carros que transportavam farinha na Mooca. Um posto policial no Brás foi tomado por manifestantes. O governo enviou tropas de infantaria e cavalaria ao bairro.

Para coordenar o movimento, foi criado, no dia 9, o Comitê de Defesa Proletária, que formulou uma pauta com 11 reivindicações (leia abaixo). Nesse mesmo dia, manifestantes pararam um veículo em frente à fábrica da cervejaria Antarctica, na Mooca. Barris de cerveja foram quebrados, e a cavalaria surgiu para dispersar os manifestantes. Naquele momento, várias pessoas caíram feridas. Entre elas, o operário espanhol Martinez, de 21 anos, baleado no estômago. Ele morreu horas depois. A notícia da morte foi um rastilho de pólvora que fez a greve se radicalizar e tomar conta de toda a cidade.

O enterro de Martinez foi uma das maiores manifestações públicas vistas em São Paulo até então. No cortejo, “um silêncio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência” – explica um jornal da época – “foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Polícia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marcha até o cemitério. À beira da sepultura, revezaram os oradores em indignadas manifestações de repulsa à reação”.

Outras categorias aderiram à greve. Até proprietários de carroças e caminhões cruzaram os braços. Alguns bondes tentaram circular, mas foram depredados ou tomados pelos grevistas. “O dia de hontem, em toda a cidade, foi de franca anarchia”, descreve O Estado de S.Paulo, jornal tradicional da burguesia paulistana, sobre os protestos do dia 13. Até esse dia, 90 estabelecimentos estavam parados, e os grevistas somavam quase 44 mil trabalhadores segundo o Comitê de Defesa Proletária.

BRASIL
A greve ganha o país

A greve em São Paulo terminou no dia 15, após a assinatura de um acordo que reconhecia o direito de reunião, aumentos salariais, a libertação dos grevistas presos e a proibição de demissões.

A burguesia, porém, não demorou para reprimir os líderes do movimento. Muitos sindicatos e jornais operários foram fechados. Com a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1917, o governo aproveitou para decretar estado de sítio e extraditar centenas de lideranças sindicais de origem europeia. Essas extradições, feitas em nome de uma suposta cruzada contra os inimigos da pátria, golpeou profundamente as organizações anarquistas. Apesar de o Brasil não disparar um único tiro no conflito, a guerra foi a desculpa perfeita para a repressão.

Greve dos ferroviários em Porto Alegre em 1917

A luta operária, no entanto, continuou. A greve alcançou outras partes do Brasil. Ferroviários deram início à greve em Porto Alegre e Pelotas. Operários sapateiros iniciaram uma longa paralisação em Curitiba. No Rio de Janeiro, entre 1917 e 1920, foram realizadas 67 greves. Em novembro de 1918, sindicatos anarquistas tentaram realizar uma insurreição para derrubar o governo central na então capital do país. Em São Paulo, a luta operária também continuou. Em 1919, foram registradas 64 greves. Em 1920, ocorreram outras 37.

PERSPECTIVA
O primeiro passo de uma longa jornada

A greve de 1917 abriu um ascenso da classe operária até 1920. Nesse período, houve o maior número de greves do Brasil até aquele momento. Os sindicatos surgiram e se fortaleceram, assim como a imprensa operária. Também embalou sonhos e a esperança de uma transformação revolucionária da sociedade. Esse sentimento aprofundou-se ainda mais quando o proletariado brasileiro soube que, na distante Rússia, a classe operária tinha feito uma revolução e tomado o poder.

A Greve Geral também marcou o início do fim do anarquismo no movimento operário brasileiro. A repressão policial desarticulou o movimento, e eles tinham seus próprios limites. Sua estratégia limitava-se a lutas por reivindicações imediatas e econômicas. Para os anarquistas, o ator principal da revolução eram as grandes massas exploradas, e não a classe operária, que espontaneamente iam adquirir consciência política e pôr fim à exploração. Esse foi o caminho percorrido pela ingênua e fracassada insurreição de novembro de 1918.

Os anarquistas não resistiram à crescente influência das ideias da Revolução Russa. Em 1922, foi fundado o Partido Comunista por antigos líderes anarquistas. Assim começou outra fase da história da classe operária brasileira.

Em tempos de reformas trabalhista e previdenciária, estudar a primeira Greve Geral brasileira e as condições de vida da classe operária da época é uma tarefa indispensável.

Publicado originalmente no Opinião Socialista nº 538