“Aqui a gente é livre”: notas sobre a ocupação da E.E. Martim Egídio Damy

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Relato do antropólogo Rodrigo Chiquetto que esteve na ocupação da E.E. Martim Egídio Damy

Esse é o grafite que a gente fez” – disse-me o menino negro, magro e alto que me levava para conhecer a ocupação – “o pessoal fala que é sobre a tragédia de Mariana”. 

Estávamos no corredor da Escola Estadual Martin Egídio Damy, localizada na Zona Norte da capital paulistana. Eu chegara ainda há pouco, fora bem recebido pelos três rapazes que cuidavam da entrada e saída do portão. Conversara com eles brevemente sobre o ato que havia sido realizado ainda naquela manhã, em que saíram da escola para “fechar” a Marginal do rio Tietê, e que sofrera repressão policial (segundo me contaram mais tarde, eram 50 PM’s para 30 alunos). Naquele momento caminhava pelas dependências do colégio com um dos três jovens que, orgulhoso, contava-me sobre as obras dos ocupantes: “a gente que pintou todas essas paredes. Ficaram bonitas, né?”. Havia grandes “crafts” com palavras de ordem que pediam o fim da exploração da mulher, do negro, do aluno. Havia, também, uma parede forrada de papéis que traziam as reivindicações dos estudantes: “pelo fim do vestibular; contra o genocídio do povo preto; desmilitarização da PM; a favor de cotas raciais; + educação – corrupção; direito ao lazer; basta de racismo; basta de violência contra a mulher; + escolas; – Alckmin; direito à cultura; direito ao esporte; #ocupadamy.”

E havia, finalmente, o grande painel, que ocupava uma parede inteira e que mostrava uma cena terrivelmente apocalíptica, em que homem, mulher, peixe e ossos figuravam e agonizavam, enterrados na grande lama da Samarco.

Dentro do prédio, tudo absolutamente limpo e organizado. Duas salas tornaram-se dois grandes dormitórios. O pátio central ainda contava com sua grande mesa, na qual em breve seria servido o jantar, o qual estava sendo preparado dentro da cantina, a portas fechadas. Conversei por uns minutos com os dois militantes da juventude do PSTU que haviam me levado até ali. Eles conheciam os alunos há muito tempo e acompanharam a ocupação desde o início. Conheciam todos e todos os conheciam. Sua relação com os alunos parecia ser de grande confiança e companheirismo.

Contaram-me que havia aqueles que ocupavam a escola de modo mais intensivo. “O pessoal mais compromissado”, como me disse um dos alunos. No entanto, em momentos de grandes eventos, sempre chegava mais gente. O evento que ocorreria naquela noite não era dos maiores – um jovem professor uspiano (eu) iria conversar com eles sobre a crise econômica -, mas o dia seguinte prometia: receberiam “os pais” na escola e mostrariam, a eles, como estavam cuidando bem do local, para que estes não fossem facilmente ludibriados na reunião que teriam com a diretora, na sexta seguinte. O Estado lançara uma ofensiva nessa semana, decidindo apelar aos pais para retirarem seus filhos dos prédios, e eles elaboraram sua própria estratégia de defesa: se os pais são agentes importantes na disputa, é imprescindível ganhá-los na luta. Tudo estava sendo meticulosamente preparado…

O jantar fora feito por algumas garotas (uma das quais disse não ter ideia de como se cozinhava) e por um menino chamado, carinhosamente, por todos, de “Chuchu”. “O Chuchu manda na cozinha”, disse-me um. “O que ele disser que tem que ser feito, vai ser feito!” contou outro. Chuchu era um moço negro, corpulento, inteligentíssimo e bissexual. Mais tarde, ele vestiria uma camiseta colante, arregaçaria as calças e sairia abraçando suas amigas. Participou da aula sobre a crise econômica com interesse ímpar, mostrando-se informado sobre tudo.

Em certo momento, perguntei onde era o banheiro. Uma menina apontou o sanitário masculino, mas logo foi interrompida por outro rapaz, que afirmou:  “na verdade você pode ir em qualquer um. Aqui a gente é livre”. Os banheiros, aliás, estavam também limpíssimos. Eram utilizados pelos ocupantes para tomar banho: “a gente até instalou um chuveiro no banheiro dos funcionários! Além de cortarmos a grama do pátio… A escola nunca esteve tão bem cuidada”.

Um menino arrumava as mesas e cadeiras para o jantar. A comida foi posta na bancada da cantina e todos foram se servir. Após comer, cada um deixava seu prato numa bacia. Contaram-me que, numa das primeiras assembleias, decidiram por criar uma comissão só para a lavagem de pratos, uma vez que o espaço da cantina, por ser diminuto, impossibilitava o grande trânsito de gente. Disseram que, atualmente, a polícia bate na porta da escola todos os dias e que sempre “ficha” aqueles que por lá estão. Pareceram encarar tudo isso com naturalidade – não se poderia esperar outra coisa do governo.

Minha experiência com ocupações estudantis me fez chegar preparado para começar a aula pelo menos duas horas depois do programado. Nem foi tanto assim: após uma hora e meia, somente, e tendo terminado o jantar, sentamos em círculo e me preparei para começar a falar. Antes, no entanto, foi realizado um instigante e espontâneo ritual: uma menina circulou entre os rapazes, passando batom preto em todos eles. Um deles, dos mais articulados, aceitou ser maquiado se o menino do PSTU também fosse. Este, por sua vez, negociou: “só se você comprar o nosso jornal!” Rindo, o aluno aceitou a proposta e ainda emendou: “tá mal o PSTU, heim! Fazendo cada coisa por dois reais…”.

Tive medo da aula. Iria falar sobre a crise, sobre capitalismo financeiro, sobre bancos. Assunto complicado e demasiado abstrato para qualquer pessoa. Os meninos e as meninas ouviam tudo atentamente. Interrompiam, apresentando suas dúvidas e realizando conexões entre o mercado financeiro e a situação de sua escola. Moças e jovens abraçados, sentados em roda, refletindo sobre a crise como, possivelmente, nunca haviam tido a oportunidade de refletir antes. Terminada a conversa, agradeceram: “esse conhecimento que você trouxe pra gente, hoje, vale ouro”.

Que nada, eu que agradeço.  O que vale ouro é o que eles estão fazendo. Se apropriando do símbolo maior da reprodução das desigualdades sociais – a escola – e transformando-a num ambiente de comunhão, coletividade e reflexão. Transformando-a, na verdade, no que deveria ser, de fato, aquele local. Estes jovens estudantes da periferia de São Paulo entenderam, na prática, o verdadeiro significado da experiência educacional.

Temos muito o que aprender com eles.